Mas meus hábitos alimentares monocromáticos não param por aí. Não há nada que eu deteste mais do que ela, aquela que faz chorar meu apetite. Famosa, ela tem até personagem em gibi infantil. A cebola. Odeio cebola. E, tratando-se de uma planta hortense, utilizo o verbo odiar sem culpa. A cebola, ou Allium caepa, foi o grande terror da minha infância. Parecia estar em toda parte. No arroz, no feijão, na massa... Nem o endeusado filé à parmegiana conseguia escapar de sua cruzada contra meu metabolismo.
Pois bem, eu não imaginava que minha relação com o supracitado tempero mudaria radicalmente naquele dia, há alguns poucos meses. Chamo de Dia C. Foi o dia em que ela entrou pra valer na minha vida. Embarcou com toda sua força no meu sistema digestivo.
Estava tudo em ordem. A Petikseira do shopping Iguatemi, lotada como sempre. Eu e minha vó entramos na fila. Os bancos vermelhos me incitaram a um (adivinhem) bife à parmegiana. Eu ainda era virgem de Petiskeira. Sempre preferira um mini burger imperialista a qualquer outra opção. Qual foi a minha surpresa quando, ao receber a carne, vejo meia dúzia de anéis enrolados entre o arroz e as batatas fritas. Não! Não podia ser verdade. Fechei os olhos, respirei. “Calma, elas não estão ali.” Mas estavam. Pareciam debochar da minha incredulidade. A fome era tanta que resolvi ignorar o fato. Mas, num momento de desespero, após não ver nem bife nem batatas no prato, resolvi tomar uma ação impensada. Comi um anel de cebola! Aquele crac-crac na boca deu um arrepio, no começo. Aos poucos, o crac-crac foi substituído pelo crec-crec da fritura. Ahh... A fritura! Essa, sim, sempre acompanhou meu organismo rebelde. Camuflada sob o manto belo e crocante da fritura, a cebola já não parecia tão monstruosa. Em meio à batalha de cracs contra crecs, quando dei por mim já tinha comido todos os anéis. Minha vó enfim vencera. Majestosa e altiva, não escondeu o sorriso que há anos estava guardado para aquele momento. Não ousou proferir uma palavra. Apenas apreciava o gosto da vitória. Deve ser acebolado, há de ser.

