quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Tietagem e alfinetadas na palestra. Ou de quando descobri que posso ser um criminoso.

O que mais me marcou na palestra do Caco Barcellos foi que o brasileiro, contrariando minhas teorias, não perdeu a capacidade de protestar. De ser tenaz, arguto, provocador e alfinetante. Tudo bem que o público era composto de estudantes universitários, dos quais grande parte faz jornalismo. Mas, ainda assim, a pergunta afastou a apatia e deu um ar de rebuliço ao ambiente.

- Gostaria de saber se todos os números revelados sobre as mortes por violência no Brasil são superiores às mortes causadas pelo cigarro todos os anos.


Óquei, não foi exatamente assim, não gravei a frase, apenas a idéia. A pergunta seria idiota e sem nexo, a não ser pelo fato de estar ecoando num evento organizado pela, cof-cof, Souza Cruz.


Caco Barcellos, o maior souvenir do jornalismo contemporâneo, ficou vermelho, titubeou e alegou desconhecer os dados referentes aos prejuízos do tabaco. Apesar de não descartar a realização de uma reportagem sobre o assunto (!), o jornalista disse que aquele não era o foco da palestra. Sua cara de “putz-parem-com-isso-a-souza-cruz-tá-me-pagando-para-estar-aqui” dispensava quaisquer justificativas.

Rapidamente, a representante da empresa pegou o microfone e desempenhou (muito bem, diga-se de passagem) o papel de advogada do Diabo. Como boa relações-públicas,
a moça foi polida, calma e convicta, mas, na verdade, tudo o que ela disse poderia ser resumido numa frase “Fuma quem quer. Burros são vocês que se matam e ainda fazem a gente lucrar com isso”.

Tirando o divertido contratempo, a conversa foi bem descontraída e construtiva. Mais formativa do que informativa. A tese do souvenir é, no mínimo, instigante: o Estado é a maior máquina de matar da sociedade. A polícia, através, principalmente, de unidades especiais como BOPE e ROTA, aniquila mais pessoas do que os traficantes e os assaltantes. E o mais perturbador de tudo isso: nós somos coniventes e co-autores dessa teia perversa. Durante a palestra, fomos o tempo inteiro, enquanto público de classe média universitário, culpados. Caco não se eximiu, não foi hipócrita. Também reconheceu seu papel nessa história, e, sobretudo, acusou. Construiu frases como “vocês, que não são criminosos habituais (...)”. Porra, o cara me chama de criminoso e eu fico sentado só ouvindo? Sim. Porque talvez seja verdade mesmo. Repeti a noite inteira o mantra: “O que me isenta disso tudo?”, “O que me isenta disso tudo?”, “O que me isenta disso tudo?”. E, afinal, o que, de fato, faz com que eu tire o meu da reta? E o seu?


*Ao final, todos ganharam uma mochila reciclada. Realmente bacana. E o melhor, de graça. Eu peguei a minha, claro. Agora ando pra lá e pra cá com MINHA hipocrisia estampada nas costas.

**Caco Barcellos, como bom bonequinho de vitrine, colocou-se à disposição para fotos no final do papo. Ah, essas tietes! :D

5 comentários:

Rô Peixoto disse...

Assista "Obrigado por Fumar"...
Leia "Estação Carandiru"...

No primeiro, o papel da tal advogada do Diabo, em versão loga metragem.
No segundo, os bastidores do que realmente é a vida do crime e como a polícia age com isso.

Não, ninguém tem como tirar o seu da reta.

Luana Duarte Fuentefria disse...

mais ou menos efeito borboleta, samirro.

tudo tá interligado e não temos como fugir disso. o que eu faço aqui reflete em ti aí. mas, nesse caso, a idéia até que não é má... hehe

e é estranho pensar q o meu tá na reta também... :S

Wago disse...

esqueceu de mencionar o tomate que tocaram na cara da RRPP.
Ah, e tem que falar do sucessssso da tua mochila!!!

Elisandra Amâncio disse...

Muito bacana o texto e a história!

Marcos, ou Gui-Gui para os amigos disse...

Eu li em outro site que também teve uma guria que se indignou e saiu a passo gritando "Blá-blá-blá Whiskas sachê"...