segunda-feira, 20 de outubro de 2008

O bailão visto por dentro

Exaltação. Suor. Animação. Essas três palavras compõem o mini-universo em que pode ser enquadrada certa derivação de casa noturna. Não uma boate tradicional, com dançarinas sedutoras rebolando em pequenas gaiolas suspensas. Tampouco um salão empolado, onde damas da alta sociedade desfilam vestidos longos e narizes empinados. Os três vocábulos acima se traduzem em apenas uma palavra: bailão.

A fachada é simples e informal, porém, informativa. A pintura gasta alerta, em tons de vermelho e azul, que o imenso casarão branco localizado na Avenida João Pessoa abriga a Cervejaria Rodeio e terá, na quinta-feira, 9/10, show com a banda Musical JM. “O pessoal da JM cobra R$ 15 mil por duas horas de apresentação”, dimensiona Moisés de Assis, proprietário do clube. Com ares de obviedade típicos de quem já domina o assunto, esclarece: “Bandas grandes só tocam por duas horas”.

Com 53 anos, jornalista formado e apresentador de um programa matutino na Rádio Farroupilha, Assis acumula o trabalho de radialista com a gerência de uma “casa popular”, como ele mesmo prefere definir seu empreendimento. “Bailão é um termo muito pejorativo”, justifica. Sentado em uma saleta discreta dentro do grande galpão que é a Cervejaria Rodeio, Moisés ostenta algumas prerrogativas de dono. Um sofazinho amarelo de dois lugares, uma televisão de 12 polegadas e uma mesa de escritório com porta-canetas e papéis espalhados são os pequenos luxos que o grande salão cimentado esconde. O pequeno Bunker de Moisés. Onde a vasta gama musical que ecoa através das dez caixas de som do ambiente não chega com tanta intensidade.

A casa existe há 28 anos e está há oito sob as rédeas do radialista. Já se chamou Ático, Status Clube, Capitão Sete e Clube Rodeio. A mudança para o nome atual é “uma tática de venda para atingir um público mais jovem”, esclarece Assis. Por público, entenda-se pessoas de todas as idades. Moisés prefere não restringir e estima uma margem de freqüentadores entre 16 e 60 anos. A mesma distância não prevalece quando dimensiona a esfera social de quem procura diversão no chão batido da cervejaria. ““Quem vem aqui é a classe trabalhadora, é o motorista de ônibus, a diarista, a aposentada, a garçonete, o eletricista”, conclui.

“O gosto popular é muito acentuado”

“Se apertar ela dá... dá, dá, dá. Se insistir ela dá... dá, dá, dá. Com jeitinho ela dá... dá, dá, dá.” A letra libidinosa e o ritmo dançante embalam os quadris de Rose pelo salão retangular rodeado por 14 camarotes e pequenas mesas redondas. O desconhecido que a acompanha é apenas um acessório para seu divertimento. “Venho aqui só para dançar”, confessa a pensionista, admitindo que “quando os homens tentam alguma coisa, eu dou o fora”. Mãe de duas adolescentes, a moradora do bairro Cristal reúne os amigos e se desloca religiosamente para o santuário da folia barata. “Aqui é que nem Igreja, tem que vir todo domingo”, confirma Rose, enquanto olha para a pista a procura do próximo objeto dançante.

“Você nunca me amou, só me quer naquela hora”, esbravejam as dez caixas de som negras camufladas na penumbra do ambiente. Em seguida, outra voz entoa: “Ela não me ama. Ela só quer coisar”. O ritmo e as letras parecem não incomodar Adam Santos. Aos 19 anos, o jovem eletricista não se abala com a sonoplastia: “Meus pais escutam esse tipo de música, então já estou acostumado”. Porém, é visível a percepção de que o morador de Estrela não faz parte do folclore local. Calçando tênis All Star preto e vestindo calça jeans e camiseta justas ao corpo, o rapaz desconversa. “Gosto mesmo é de rock!”. A franja corta o rosto na diagonal e denuncia suas preferências musicais destoantes. “Escuto geralmente Fresno, NX Zero e Simple Plan”, revela. A opção pela Cervejaria Rodeio para passar a noite de domingo não se fundamenta nas melodias: “Estou em Porto Alegre a trabalho e um amigo me convidou para vir pra cá”, ressalva, concluindo que espera “conhecer gente nova”.

Indiferente ou apaixonado, o público sente na música o perfil da casa. Detentor da programação e senhor absoluto das caixas de som, Moisés de Assis reconhece a importância da sonoridade para a movimentação do estabelecimento. “Eu sou um arquivo musical, quem dita as músicas aqui sou eu”, impõe o corpulento gerente. Mas acrescenta: “A música é péssima, é só dor de cotovelo”. Apesar de gerenciar uma casa popular, Moisés não compartilha as mesmas predileções dos seus clientes. “Gosto de Queen, Beatles, Lulu Santos”, contrapõe. Para ele, “o pessoal que consome o tipo de música do bailão é mais alienado”. O proprietário, que fatura em média R$ 150 mil por mês com a Cervejaria Rodeio, resume o apetite sonoro do público: “O gosto popular é muito acentuado”.

“A inspiração vem de nós mesmos”

O imponente palco da Cervejaria Rodeio é destinado às mais diversas bandas do segmento popular. Encravado no fundo do salão, de frente para a vasta pista de dança e de costas para as três cabines do banheiro masculino, o local transforma-se no foco da atenção do público quando o grupo Musical JM desponta atrás das cortinas de TNT cinza. Os sete integrantes do conjunto hipnotizam a platéia, que delira com a voz do vocalista Clayton Borges, de 38 anos.

Com mais de 16 CDs gravados, a banda realiza apresentações em vários estados do país e até internacionalmente. “Acabamos de voltar do Paraguai”, acentua o baterista Denis Casper. As fãs se espremem na frente do palco e esticam os braços na tentativa de acariciar seus ídolos. Juliana Ferraz obtém sucesso. A jovem de 19 anos ignora a cantoria e agarra Clayton pelo pescoço, levando-o para a lateral do palco. Não satisfeita, segundos depois investe contra o outro vocalista, para então descer e se juntar à massa embevecida pelas melodias do grupo. O gaiteiro Adilson Souza explica o segredo da composição das músicas de sucesso: “A inspiração vem de nós mesmos”.

Mas para tocar no palco da Cervejaria Rodeio é preciso, antes, passar pelo crivo de Josi Nascimento. A empresária das bandas trabalha há três anos no clube e se orgulha da carreira que construiu. “Hoje eu tenho mais de 60 grupos na minha agenda”, gaba-se Josi. E a experiência já lhe ensinou os macetes da profissão. “San Marino é a banda que mais lota, tanto é que eu consigo apenas dois ou três shows deles por ano”, explica. O cartaz na parede anuncia a próxima atração: “Banda Matizes - os bad boys do tchê music.

“É barato sem ser depreciativo”

Quem paga os cinco reais cobrados para entrar na Cervejaria Rodeio não desconfia que as cifras necessárias para a manutenção do estabelecimento possam chegar a R$ 50 mil por mês. “Só a conta de luz é em torno de R$ 3 mil”, salienta o proprietário Moisés de Assis. Com água, o gasto cai para R$ 2 mil. Mas a maior despesa vem do aluguel do salão, que ceifa dezoito mil reais do lucro mensal de R$ 150 mil que a população proporciona a Moisés.

A casa emprega 28 trabalhadores fixos, com salário em torno de R$ 960,00. Moisés ressalta que, informalmente, o local gera emprego para garagens, para atendentes do posto de gasolina vizinho ao prédio e para seguranças na rua. “É só fechar a casa e a região está morta”, explica o empresário. A família também participa dos negócios. “Tenho três irmãs que trabalham comigo”, afirma.

Com capacidade para 1.500 pessoas, a média de consumo de bebida do clube é de 180 caixas de cerveja por noite, relativo a uma garrafa por pessoa. A quantidade cai no inverno, quando o movimento despenca. Moisés explica porque a estação quente atiça os freqüentadores: “O público da Cervejaria Rodeio não viaja no verão. São como cobras, é só esquentar e saem para a rua”. Para tornar suportável o calor, o salão conta com 17 ventiladores de teto estrategicamente posicionados nos arredores da pista de dança. Como um criador que valoriza sua obra, Moisés sintetiza o resultado da equação gastos elevados x custos baixos: “O bailão é barato sem ser depreciativo”.

7 comentários:

Natalia Pithan disse...

Isso tem cara de texto de produção de jornal...acertei?? =D Incrivelmente jornalístico, fontes, depoimentos....é... não precisa nem responder.. heheheh..só faltou os telefones das fontes do final da matéria...=D

Wago disse...

Como diz o Leonam, PERFFEITO...
Aliás, já usaste isto antes.. huasuhauhsa

Luana Duarte Fuentefria disse...

puts! até um bailão se torna interessante nas tuas mãos.

Luana Duarte Fuentefria disse...

escreve! escreveeee!!!

saudade da minha dose de samir. :(

Rô Peixoto disse...

Nossa! Fazia tempo que não vinha aqui! Pensei que tinha abandonado teu blog!

O que que tu foi fazer num bailão???

"A franja corta o rosto na diagonal e denuncia suas preferências musicais destoantes."

EMOOOO!
Adorei!!

Vou continuar lendo!
Beijos!

samy disse...

Oii tenhoo 16 anos se eu for com um responsavel eu entroo? Mtooo orbrigadoo aguardooo a respostaa!

Márcio disse...

Alguém sabe o telefone ou o endereço dessa Cervejaria Rodeio? não encontro na internet...