quarta-feira, 14 de maio de 2008

Esperança a estibordo

A rua Santa Catarina é escura. As árvores pendentes e a ausência quase total de postes dão um ar de algo meio brejo-urbanizado, meio urbe-embreada. Fica a umas três quadras do antigo hospital Lazarotto, hoje prédio oco encravado na onomatopéica avenida Assis Brasil. Lá, na ruela florestosa com nome de Estado, se entoca um marujo malfardado com um passado tão turbulento e oscilante quanto as estourantes ondas marinhas.

“Sim, senhor, senhor!”. Posso imaginar o ex-marinheiro, ex-guerrilheiro, ex-torturado, ex-exilado, ex-não-anistidado, ex-militante-treinado-em-Cuba, ex-utópico Avelino Capitani bradando, lá pelos idos de 1960, num quartel carioca da Marinha. Mas, ao abrir a portinhola enferrujada e rangenta do bloco de casas porto-alegrense onde mora, não diz nada. A roupa denuncia o saudosismo (ou seria o hábito?) da farda cerimoniosa. A calça é branca e entra em total harmonia com os sapatos. Não fossem tecidos velhos e de malha xexelenta, o conjunto poderia ser confundido com a suntuosa veste de um marinheiro. Faltava-lhe, nos ombros arqueados, as estrelas e umas três daquelas flechas diagonais que enfeitam de pujança e brio o ombro ereto de um militar.

Mas militar já não é. Não o tem sido desde 1964, quando a caserna cravou suas baionetas em Brasília e vestiu a toga rasgada da justiça e o terno negro da política. Capitani, àquela época, era dirigente da Associação dos Marinheiros e foi um dos líderes da fracassada revolta que os companheiros de farda tentaram fazer contra o golpe.

Sentado na poltrona laranja, fuma o segundo Carlton vermelho e assopra rodelas cinzas de fumaça. Como aquelas que os marinheiros fazem nos desenhos. As de Capitani saem tortas e voláteis. Sobem até a altura dos seus cabelos e parecem se misturar a eles, reforçando a cor amarelo-desbotado e cinza-sujo que os caracterizam.

“Eram dez mil soldados a postos para atacar três mil marinheiros aquartelados”, puxa Avelino pela memória, enquanto diverte-se com as rodelinhas cancerígenas. E como é que ele foi parar lá, no meio daquela muvuca toda? O lajeadense só queria uma coisa. Entrou na Marinha por um motivo apenas: o estudo. Como era pobre, viu na armada das águas uma oportunidade para continuar aprendendo.

“O lápis da gente era na ponta da enxada”, graceja o marujo, referindo-se à infância interiorana, quando cursou até não mais que a 4ª série. A decisão de se alistar não foi nobre nem patriótica. “Um dia eu estava na praça XV comendo um picolé e sentou um marinheiro do meu lado e começamos a conversar”. Foi assim, meio que por acaso, que Capitani almejou ser almirante. Mal sabia ele, na ingenuidade dos 20 anos, ao se candidatar à Marinha, que acabaria na então Guanabara amotinado com um bando de esquerdistas. Avelino não sabia de muitas coisas. Na efervescência da metrópole conheceu Marx, Marcuse, Debray e a realidade brasileira do início dos anos 1960.

Em 1966 resolveu passear pela Serra do Caparaó, no Espírito Santo, e, junto com mais uns vinte homens, formou o primeiro foco de resistência armada à ditadura tupiniquim. “Analisando hoje, foi uma loucura. Mas, na época, a gente não pensava assim. Nós éramos soldados latino-americanos comandados, em instância internacional, por Che Guevara”. A história mostra, contudo, que nem o sangue latino, nem a presença de Che na vizinhança, nem o apoio de Brizola, nem o treinamento em Cuba foram suficientes para impedir que vinte guerrilheiros tornados em frangalhos sucumbissem ao poderio do exército em 1967.

No Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR), Avelino virou Charles. Com uma pistola 45mm em mãos, ele ganhou fama. Não foi só a música de Jorge Ben que o consagrou. “Na época, me chamavam de ‘gatilho de ouro’”, confessa, não sem um certo regozijo no olhar encovado de olhinhos negros e fundos. Após o fracasso das férias em Caparaó, Capitani refugiou-se no então pacífico Uruguai, onde pretendia rearticular-se com Brizola e seus aliados. De lá, passou por Bolívia, Argentina e Chile. Voltou para um Brasil pós-68 e ajudou a guerrilha urbana nos assaltos a bancos.

Hoje, o ex-muitas-coisas não tem pudor em falar sobre o passado. Alguns guerrilheiros enlouqueceram ou trancafiaram-se no mais inerte silêncio. Capitani não. Vítima da crueza de um regime que torturava e matava, ele fala sobre o assunto com relativa tranqüilidade. “Hoje, eu tomaria um cafezinho com o meu torturador”, confessa Avelino. A frase não soou tão sádica quanto, de fato, parece. Acontece que Charles superou, além da dor física, a outra dor. Aquela que quebra a alma. O corpo, visivelmente, encontrou o caminho da regeneração e, ao que parece, apesar do cigarro, Capitaini esbanja saúde com seus um metro e oitenta e tantos distribuídos num esqueleto estável, ainda que com todas as mazelas da idade e do passado.

Apesar da aparente calmaria, Avelino não esconde algumas seqüelas. Marcas tanto físicas – que se denunciam na aspereza da pele e na profundidade chorosa do olhar – quanto abstratas – navegando no limbo dos pensamentos atormentados e dos sonhos perdidos. “A tortura é o que há de mais desumano no ser humano”, confidencia, ao descrever os mais atrozes meios de se machucar uma pessoa. Num fôlego de confiança e otimismo em meio aos relatos cavernosos, admite: “Ainda tenho pesadelos, mas são menos freqüentes desde que eu consegui ‘perdoar’!”. As mãos gesticulantes formam aspas no ar e espalham ainda mais a fumaça do sétimo Carlton vermelho pelo ambiente diminuto da sala. Perdoar é um conceito meio torpe quando aplicado em tão extravagante caso. Só posso concluir que, salvo a hipótese de Avelino ser um ente divino e livre de imperfeições, ele se expressou mal. E, dimensionando melhor sua assertiva, complementa: “Eu não quero morrer abraçado ao meu torturador”.

Sem abraços, sem glória e sem revolução. É assim que vive Charles quarenta e quatro anos depois do golpe que alterou inexoravelmente o rumo de suas naus. Jorge Ben tem razão ao cantar que o Anjo 45 é o “Robin Hood dos morros”. Capitani, que nunca foi Almirante de fragata, nunca pendurou um diploma de faculdade na parede bege da sua sala e não ostenta estrelas nem honras militares, agora trabalha em algumas ONGs e faz uns bicos quando dá. Contemporâneo ao beatle John Lennon, Avelino estende as velas , hasteia a bandeira irrecolhível da esperança, mira o horizonte a estibordo e brada, provavelmente, uma das poucas certezas que tem na vida: “Meu sonho ainda não acabou”. A voz de Charles ainda flutua sobre a laringe gasta do velho marujo.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Alice no país do futebol

Na segunda-feira do dia 5 de maio, a sala 206.05 do prédio 7 da PUCRS foi inundada. Não, não tem nada a ver com a torrente tresloucada que transformou o Rio Grande em cenário bíblico de dilúvio. Foi uma inundação sublime e delicada. Alice Bastos Neves, repórter esportiva da RBSTV, enxugou o marasmo pós-final de semana dos futuros jornalistas da turma 349 com uma conversa descontraída sobre esporte.

Formada em 2005 pela PUCRS, Alice nunca pensou que fosse trabalhar no meio esportivo. “Eu saí daqui (da faculdade) com a firme idéia de fazer jornalismo cultural”, confessa, e revela que sua monografia foi sobre a revista Aplauso. Também jamais lhe ocorreu atuar em outra mídia que não fosse a revista: “Na faculdade, o meu foco nunca foi a televisão”. Através de uma amiga e de um “conjunto de sorte, talento e dedicação”, Alice conseguiu uma vaga no cobiçado espaço da RBSTV.

Sem familiaridade nenhuma com campos, bolas, pistas e maratonas, a recém-formada de 23 anos começou acompanhando as equipes de reportagem no RBS Esportes, programa que busca dar maior visibilidade ao desporto olímpico gaúcho. Apesar de apenas dois anos de experiência na área, Alice já pode pendurar uma medalha de ouro em seu currículo. Em 2007, ainda meio-amadora, meio-veterana; foi ao Rio de Janeiro cobrir os jogos Pan-Americanos. “Uma coisa que me impressionou muito num grande evento foi a burocracia”, admite Alice, que, visivelmente, não faz o tipo cerimoniosa. Vestida com uma calça jeans azul justa, é possível notar a dança rítmica das unhas brancas acompanhando a blusa de gola alta da mesma cor enquanto gesticula.

Questionada sobre o espaço nada democrático dado a outros esportes na cobertura jornalística, Alice é taxativa: “O futebol envolve muito dinheiro e muita paixão”. E, com um ar mais confiante, ressalva: “Mas a gente está conseguindo abrir espaço”. Como lida rotineiramente com casos de superação, esforço e realização, a repórter-Alice não consegue se distanciar da pessoa-Alice. “Me envolvo absolutamente”, revela a jornalista. “Não tem como não se envolver, tu acabas criando uma relação de dia-a-dia com esses caras”, diz, referindo-se aos exemplos de superação de atletas gaúchos, como o caso do esgrimista João Souza, que já tem vaga garantida em Pequim.

Porto-alegrense natural de Pelotas, Alice não alimenta grandes ambições. No país do futebol, ela defende a bandeira dos jogos amadores. Queria cultura e, com o esporte, aprendeu que a vida pode tomar rumos inesperados e, nem por isso, menos interessantes. Cutucada sobre ser gremista ou colorada, Alice, como boa jornalista que pisa no tortuoso território dos gre-nais, apresenta um álibi incontestável: “Torço para o Brasil de Pelotas”.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Vargas, asilos e crises de consciência

Dia desses me veio um pensamento inusitado. Tenho uma tia-avó que sofre de alguns distúrbios mentais e está internada num asilo em Porto Alegre. Eni. Não, não é nenhuma onomatopéia desconhecida. É o nome dela mesmo. Eni passou a vida inteira com a mãe, que cuidou dela até o cansaço lhe ceifar a vida, há quatro anos.

Pois bem, essa breve contextualização é para dizer que, após dois anos morando na provinciana capital gaúcha, resolvi visitar a tia Eni. O asilo, ou melhor, a “casa de repouso” – odeio esses eufemismos hipócritas – fica na avenida Getúlio Vargas e tem inspiração divina: chama-se Arcanjo São Miguel.

Caminhando pela extensa avenida sem lixeiras, deparo-me com um número crescente de pedintes. Mendigos, moradores de rua, limpadores de pára-brisa. Gente que faz da grande avenida com nome de ditador nanico a sua casa. No percurso pelas oito quadras que me separam de São Miguel, peguei-me refletindo sobre a situação daquele lugar. Recheada de pedintes, a Getúlio Vargas remeteu-me ao paradoxal governo do homenageado pela malha asfáltica em questão.

É bem verdade que o caudilho gaúcho acabou com a política do café-com-leite e industrializou o país através do sistema de substituição de importações. Mas é inegável o caráter autoritário-populista de seu governo, que cooptou as massas e ditou os rumos do país com mãos de ferro após a implantação do Estado Novo, em 1937. Getúlio trocou uma oligarquia por outra. Ou melhor, outras. Agradando a massa excluída do país, o aclamado “pai dos pobres” conseguiu construir um consenso dócil e favorecer antigos setores do poder, como as oligarquias cafeeiras (vide o torra-torra de grãos realizado na época). Tudo isso, claro, com uma imagem de mudança, de progresso e de desenvolvimento. E o povo? O povo não se importava, afinal de contas já tinham um Ministério do Trabalho e a CLT. Formidável, não?

Bueno, tudo isso para dizer que, na promiscuidade daqueles pensamentos, em plena avenida, uma mulher me pede dinheiro. Sentada e escorada no muro de um suntuoso edifício, a mendiga era o retrato mais fiel da realidade brasileira – tanto em 1930, como hoje em dia. Minha mão cavouca, em vão, o bolso vazio. Bem na hora da abordagem, eu estava com um legítimo alfajor uruguaio na mochila. Pronto para ser deliciado. Era o último resquício de uma ida da minha mãe a Riveira. “Bá, não tenho dinheiro”, respondi, certo de que só a carteirinha do TRI habitava meu bolso. “Uma bolachinha?”, suplica a garota. Nesses momentos, a gente deve pensar rápido. Agir primeiro, refletir depois. Num ato instantâneo e quase involuntário, dei a ela o meu alfajor. “Mas tu vai ficá sem”, largou a mendiga. “Tu vai ficá sem”.

A grandiosidade da frase me comoveu. No auge de sua agonia, ela ainda se preocupa se eu vou comer ou não. A nobreza, a singeleza e o total carisma daquela mulher me cativaram de tal maneira que fiquei paralisado, com o olhar preso nela e a mente envolta em orgias interpretativas sobre a Era Vargas, o assistencialismo e a mesquinhez da elite brasileira. Só consegui murmurar um “não faz mal”, e continuei meu rumo, ciente da minha inferioridade perante tão altiva postura da marginalizada.

Nunca fui um defensor ferrenho do assistencialismo. Tampouco prego o Estado mínimo e a exclusão dos programas sociais, tidos como gastos parasitários por (argh!) Friedrich von Hayek, pai do neoliberalismo. Me vi, então, num debate interno. Fui assistencialista? Contribui com a perpetuação da mendicância no país? Ou apenas ajudei uma pessoa necessitada? Nesse caso, o argumento de “ensinar a pescar, em vez de dar o peixe” não se aplica. Não tinha como eu ensinar a mendiga a fabricar alfajores. Até porque, mesmo que eu soubesse fazer e ela aprendesse, não ficariam iguais aos semidivinos bolachões uruguaios. Enfim, fui para casa com essa pulga na orelha e um alfajor a menos. Mas com duas certezas a mais: de ter aliviado, minimamente, o sofrimento daquela mulher; e de ser totalmente inferior à nobreza de uma excluída da/de Getúlio Vargas.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

...e seu aluno do Sul

Joseph Mitchell é a prova mais indiscutível de que nem sempre o sujeito é um produto do meio em que vive. O jornalista-escritor norte-americano nasceu no sul dos Estados Unidos, em 1908. Imaginem o sul do “grande irmão do norte” em 1908. Fazendinhas bucólicas, um ou outro moinho, fenos dançando ao vento e plantações de milho, algodão e tabaco por todo o lado. Dá para imaginar que um ambiente desses poderia produzir um ser humano da estirpe de Joseph Mitchell?

Longe de ser pobre, o jornalista sempre recebeu apoio financeiro da família – que lidava com plantações de tabaco e de algodão. Quando percebeu que a terra fofa e o verde abundante não mais davam conta de abastecer seu intelecto e sua vontade de conhecer, pegou o primeiro trem (convenhamos, deveria ser um trem) para a Grande Maçã, em 1929. Caía, então, de braços abertos no berço da recessão econômica mundial. Seu talento nato com as palavras lhe permitiu trabalhar em alguns jornais da cidade, apesar de ele ter uma certa aversão às noticiais diárias. Não gostava de escrever sobre pressão e com um prazo de entrega pré-estabelecido.

Em 1934, Mitchell sossegou a pena na aclamada revista The New Yorker (seio que alimentava os maiores jornalistas da época). Aliás, quem publicava na revista passava a ganhar o status de escritor. Sob o comando do editor Willian Shawn, o responsável pela edição do livro-reporagem Hiroshima, de John Hersey, Mitchell e a New Yorker firmaram um casamento sólido e sem crises até que a morte do jornalista os separou, em 1996. De seu miniescritório no periódico, Joseph Mitchell deu voz aos cantos mais escuros de Nova York. Na revista, encontrou as condições ideais para escrever sobre seus pitorescos personagens. Não lhe interessava falar sobre as estrelas da Broadway ou sobre personalidades políticas. Ele fuçava nas ruas a procura da matéria que não ia para os tablóides ordinários. Já escreveu sobre personagens de circo, bares antigos e boêmios inveterados.

A New Yorker comprometia-se em dar tempo, espaço e liberdade. Mitchell entrava com a pauta e o texto, que poderia levar meses, até anos, para ser terminado. Um de seus perfis mais majestosos foi publicado em 1942 e, com muitos adendos, virou livro em 1964...

...continua aqui.



terça-feira, 8 de abril de 2008

Fragmentos desastrosos de uma noite errática

Semana passada realizei a maior ousadia do homem moderno. Fiz algo inimaginável. Uma proeza que nem as mentes mais férteis do planeta poderiam conceber. Eu deixei o celular em casa. E o mais aterrador: foi um ato consciente!

A tarefa era simples, tinha que ir ao chaveiro (que fica no shopping) e voltar. Horário de largada: 18h. A chegada não tinha hora marcada. Era tão incerta quanto o destino do meu celular. No princípio, cogitei não levá-lo na miniempreitada por motivos práticos. Era menos uma coisa para carregar e menos uma coisa a ser roubada (sim, eu sempre considero essa hipótese). Porém, ao catraquear a chave no trinque, voltei o olhar para aquele objeto inerte em cima da mesa mogno que preenchia o centro da sala. Comecei, então, a pensar no que poderia acontecer caso eu não alojasse em meu bolso aquele projeto de telefone. E se alguém me ligasse? E se aquela pessoa me ligasse? A gente sempre espera uma ligação daquela pessoa! E se alguém da minha família morresse ou se acidentasse? E se a RBS resolvesse me contratar de supetão? A RBS nunca liga duas vezes. E se a VIVO me ligasse? E se ele sentisse fome, frio? E se? E se? E seee?

Mesmo assim, tomei um gole longo de ar, catraqueei a chave e segui em frente. Tentava limpar minha mente com assuntos banais, mas não adiantou. Toda a trajetória foi pautada pela apreensão quanto ao celular. O meu ouvido retumbava com a imaginação de seu triiim-triiim desesperado. Sozinho, como um recém nascido a espernear (sim, pois ele vibra enquanto toca), a procura do seio quente da mãe. Não que eu tenha um seio quente, mas podia oferecer uma mão acalentadora e alisar o tão aclamado botãozinho verde para cessar seu pranto.

Chegando no shopping, descobri ter me desdobrado em vão. O chaveiro não podia fazer a maldita cópia. Não tinha a tal da matriz! Aborrecido, resolvi ver o que se passava no cinema, já que havia saído da toca por nada. Foi aí que cometi a segunda ousadia da noite – assisti a um filme sem nem mesmo saber do que se tratava. Dá para imaginar isso? Em plena era da informação, um retardado entra numa sala de cinema sabendo nada mais que o título do filme (e que seu diretor também fez Sr. e Sra. Smith – que eu odiei). Jumper era o único que se encaixava no meu horário. O cartaz era enigmático e assaz hollywoodiano. Mostrava um homem ereto com o punho ligeiramente em riste. Ao fundo havia imagens de várias paisagens conhecidas do globo, como o Coliseu e a Esfinge. Bem, a primeira coisa que me ocorreu foi que era algo sobre um cara que saltava de bungee jump por aí e gostava de exibir o punho. Nunca se sabe o que pode sair da mente infértil dessa gente do cinema.

O filme era uma bosta! Indigno de comentários. Ao menos o tempo passou e eu rasguei quatro reais. Poderia ter comprado algumas esfihas com essa grana. Mas, não, meu dinheiro estava se teletransportando enlouquecidamente no bolso do protagonista de Jumper. É, podem acreditar, o longa conta a história de um maluco que consegue se teletransportar. Bem feito, quem mandou ver sem saber!

Saber? Ãh? Putz, o CELULAR! Lacei o primeiro táxi que apareceu e fui a galope para casa. O motorista imprudente ainda reclamava sobre os “manetas do trânsito”. Os quais desejaria “atropelar com uma patrola”. Para o taxista, por manetas leia-se pessoas-que-trafegam-abaixo-da-velocidade-da-luz. Pelo menos a carona paga não durou muito. Com aflição, tentava achar a chave da primeira porta. A da segunda. As da terceira! Droga, ainda eram duas! Cai chave da mão, mais desespero. O triiim-triiim ecoa no cérebro e dissipa qualquer outro vestígio de pensamento. A chave catraqueia e vence a fechadura. A mesa cumpre, solícita, sua função e protege o celular da lei da gravidade.

O celular. Não fui audaz o bastante para tocá-lo logo que entrei. Me permiti ainda uma pequena série de devaneios. Quantas chamadas teria? Quantas mensagens eu iria ler? Alguma notícia trágica? Alguma alegria? Afinal, eu estava há quatro horas sem vê-lo! Quatro infinitas horas sem sentir sua textura, sem ver seu plano de fundo, sem sentir sua radiação. Qual foi a minha surpresa quando constatei, incrédulo, que não havia nada de diferente, exceto a hora que ele marcava. N-A-D-A. Como se quisesse ser superior a mim mesmo, fiz ares de quem já esperava por isso e esnobei aquela pequena caixinha preta. Deixando minha megalomania de lado, refleti um pouco sobre a dependência que temos de um mero instrumento mecânico só porque ele nos permite falar com outra pessoa à distância. Grande coisa! Os pombos-correio eram muito mais elegantes e refinados. Mas isso é assunto para um outro bost.

sexta-feira, 28 de março de 2008

Às Iracis

Poucas vezes a Rede Globo conseguiu me surpreender. Perdão. Várias vezes já fiquei estupefato com o nível de imbecilidade e de alienação emanado pelo brilho hipnótico de seus programas. Quis me referir a ser surpreendido por algo realmente bom. Algo que me cativasse à poltrona por um motivo mais nobre do que não ter nada para fazer, por exemplo.

Bueno, foi aí que descobri Queridos Amigos. Confesso que as minisséries globais nunca me despertaram muito interesse. Eram repletas de pretensas verdades e aberrações históricas. Mas essa, não. Sua sensibilidade lírica, o subjetivismo de suas interpretações e o caráter imperfeito de todas as suas personagens me deixaram surpreso. No primeiro capítulo, pensei estar no canal errado. Mas a telinha marcava insistentemente o número 12 no canto inferior direito (sim, eu integro a massa dos que possuem televisão aberta). Era a primeira vez que meus inexperientes ouvidos captavam palavras como “ditadura”, “redemocratização” e “repressão” saindo daquela freqüência. Daquele canal. Conferi de novo e lá estava o onipresente número 12.

Queridos Amigos consegue retratar uma época de enormes incertezas, a frágil transição para os anos 90, de uma maneira livre de estereótipos e sem dar voz a tão propagados mitos nacionais. Afinal, era praticamente o fim de uma era. O fim de muitos sonhos e o começo de algumas conquistas – poucas e falhas. E a minissérie mostra esse panorama sem reavivar pré-conceitos ou impor verdades absolutas.

Ontem, quando finalmente não tinha nem Pedro Bial e seus heróis, nem qualquer jogo do raio-que-o-parta contra o atlético-sei-lá-das-quantas, pude finalmente acompanhar de novo os anseios de Léo e companhia. Uma cena, em especial, me deixou vidrado. Alucinado em frente à tela. Sequer deveria ter piscado. Fernanda Montenegro, travestida de mãe de uma vítima da ditadura, colocava-se, por vontade própria, cara a cara com o algoz de sua filha, que ainda apresentava feridas psicológicas de um período de terror. Encarnada em dona Iraci, ela puxou um livro e leu para o carrasco, conhecido como “nenê”, as inenarráveis brutalidades escritas por sua filha. Confissões exorcizantes de males que a alma não descarta e que o tempo não relega aos confins do esquecimento. Ao rebater que “só cumpria ordens”, o torturador/estuprador levou uma bofetada na cara!

Vocês conseguem imaginar isso? Conseguem imaginar a ira de uma senhora de 70 e poucos anos que se atreve a esbofetear um homem capaz das piores atrocidades? Talento de Fernanda ou pieguice minha, eu pude sentir cada gota de rancor, mágoa e sofrimento destilada pelas palavras da atriz. O tabefe me fez dar um salto do sofá. Aquela mãe declamando selvajarias aos berros contra o demônio de sua cria pode até ser ficcional. Uma farsa encenada e cronometrada. E, por mais absorto que eu estivesse, ainda tinha consciência disso.

Entretanto, tão logo vieram as propagandas, surpreendi-me num choro súbito. Pranto de almas férteis que sentem pelos outros, sentia como se fosse eu o protetor de uma filha torturada. As lágrimas escorriam e me faziam pensar nas verdadeiras Iracis. Nas mães que viram seus filhos estropiarem-se por uma causa perdida. Por um idealismo desbundado ou por uma porralouquice desvairada. Teriam elas, também, iracundas leoas que zelam pela sua prole, deitado o peso de suas mãos na cara dos inimigos de uma geração?

Pode parecer besta, irrisório e, até mesmo, infantil. Mas eu dediquei aquele inesperado e incontido choro a todas as Iracis do Brasil. Pessoas que, com um pequeno ato de extrema coragem, deixaram uma marca em quem banhou este país de sangue, em qualquer época. Gente que teve a audácia de apontar o dedo para os “nenês” que circulavam, e que ainda circulam, livremente pelas ruelas e avenidas brasileiras.

*Passado esse momento de introspecção e angústia, dei-me conta do ridículo da situação: nunca poderia crer que um dia a Globo me faria chorar por um motivo desses.

segunda-feira, 24 de março de 2008

Jornalismo e política regados a chumbo

”Hoje tu tens uma meleca geral.” A frase pode parecer estranha e até nojenta. Mas resume, em poucas palavras, o panorama político atual. E ninguém mais gabaritado para ditá-la do que um jornalista do porte de José Mitchell. O ex-repórter e atual pauteiro da RBSTV conversou com estudantes de jornalismo da PUCRS sobre sua vasta experiência na cobertura política nos sombrios tempos da ditadura militar brasileira.

O início da década de 1970 foi o lamacento palco de atuação de Mitchell como repórter na sucursal do então prestigioso Jornal do Brasil, em Porto Alegre. Ele cobria as áreas de política e de polícia para o periódico carioca aqui nos pampas. Política e polícia, duas palavras promiscuamente interligadas numa época em que aprofundar-se demais nesses assuntos podia levar à cadeia e, conseqüentemente, talvez, até a morte.

E como era, então, o trabalho do jornalista que se aventurava pelos subterrâneos desses temas? “Nós tínhamos uma ditadura militar, então, na área política, quem eram as fontes? Eram os generais. Eram eles que mandavam”, comenta Mitchell, ressaltando a fragilidade das instituições civis e dos partidos políticos naquele período.

Autor do livro Segredos à direita e à esquerda da ditadura militar, Mitchell reconhece que, antes de qualquer atributo, “um bom jornalista deve saber contar boas histórias”. E foi com esse intuito que ele desmembrou em livro histórias peculiares da ditadura tupiniquim. Seu objetivo não é santificar ou demonizar figuras conhecidas da repressão ou da guerrilha. Mitchell deseja humanizá-los através de histórias reais.

O leitor pode se surpreender ao saber que a maior e mais bem sucedida greve do magistério, a de 1979 – que culminou com a contratação de 20 mil professoras e com um aumento de 70% no salário -, só obteve êxito graças à intervenção direta dos militares no caso. Ou, então, se comover ao ler que um dos acusados de ser torturador em Porto Alegre, o delegado do DOPS (órgão de repressão do regime) Pedro Seelig, salvou da morte os dois filhos do famoso casal de presos políticos uruguaios, Líllian Celiberti e Universindo Dias. José Mitchell, aliás, participou ativamente do grupo de jornalistas que investigou o nebuloso caso que envolveu o seqüestro, em solo gaúcho, dos uruguaios pelos aparelhos de repressão das ditaduras latino-americanas.

Com tanta experiência adquirida durante 30 anos de trabalho, Mitchell define de maneira simples o que é a política: “São pessoas disputando o poder”. E alerta aos futuros jornalistas para que fiquem atentos a essa questão, principalmente no que diz respeito às benesses que esse poder pode proporcionar. Com um ar de quem já viveu um bocado e entende das coisas da vida, sentencia: “Os jornalistas devem lutar contra privilégios”. E, sem cair no saudosismo ou na amargura de quem viveu os anos de chumbo, declara: “Ditadura é ditadura, seja de esquerda ou de direita. Não há regime melhor que a democracia”. Eis as palavras de quem, sem ter caído no extremismo ou sucumbido à derrota, se equilibrou na corda bamba de um tortuoso período da história brasileira.