segunda-feira, 20 de outubro de 2008

O bailão visto por dentro

Exaltação. Suor. Animação. Essas três palavras compõem o mini-universo em que pode ser enquadrada certa derivação de casa noturna. Não uma boate tradicional, com dançarinas sedutoras rebolando em pequenas gaiolas suspensas. Tampouco um salão empolado, onde damas da alta sociedade desfilam vestidos longos e narizes empinados. Os três vocábulos acima se traduzem em apenas uma palavra: bailão.

A fachada é simples e informal, porém, informativa. A pintura gasta alerta, em tons de vermelho e azul, que o imenso casarão branco localizado na Avenida João Pessoa abriga a Cervejaria Rodeio e terá, na quinta-feira, 9/10, show com a banda Musical JM. “O pessoal da JM cobra R$ 15 mil por duas horas de apresentação”, dimensiona Moisés de Assis, proprietário do clube. Com ares de obviedade típicos de quem já domina o assunto, esclarece: “Bandas grandes só tocam por duas horas”.

Com 53 anos, jornalista formado e apresentador de um programa matutino na Rádio Farroupilha, Assis acumula o trabalho de radialista com a gerência de uma “casa popular”, como ele mesmo prefere definir seu empreendimento. “Bailão é um termo muito pejorativo”, justifica. Sentado em uma saleta discreta dentro do grande galpão que é a Cervejaria Rodeio, Moisés ostenta algumas prerrogativas de dono. Um sofazinho amarelo de dois lugares, uma televisão de 12 polegadas e uma mesa de escritório com porta-canetas e papéis espalhados são os pequenos luxos que o grande salão cimentado esconde. O pequeno Bunker de Moisés. Onde a vasta gama musical que ecoa através das dez caixas de som do ambiente não chega com tanta intensidade.

A casa existe há 28 anos e está há oito sob as rédeas do radialista. Já se chamou Ático, Status Clube, Capitão Sete e Clube Rodeio. A mudança para o nome atual é “uma tática de venda para atingir um público mais jovem”, esclarece Assis. Por público, entenda-se pessoas de todas as idades. Moisés prefere não restringir e estima uma margem de freqüentadores entre 16 e 60 anos. A mesma distância não prevalece quando dimensiona a esfera social de quem procura diversão no chão batido da cervejaria. ““Quem vem aqui é a classe trabalhadora, é o motorista de ônibus, a diarista, a aposentada, a garçonete, o eletricista”, conclui.

“O gosto popular é muito acentuado”

“Se apertar ela dá... dá, dá, dá. Se insistir ela dá... dá, dá, dá. Com jeitinho ela dá... dá, dá, dá.” A letra libidinosa e o ritmo dançante embalam os quadris de Rose pelo salão retangular rodeado por 14 camarotes e pequenas mesas redondas. O desconhecido que a acompanha é apenas um acessório para seu divertimento. “Venho aqui só para dançar”, confessa a pensionista, admitindo que “quando os homens tentam alguma coisa, eu dou o fora”. Mãe de duas adolescentes, a moradora do bairro Cristal reúne os amigos e se desloca religiosamente para o santuário da folia barata. “Aqui é que nem Igreja, tem que vir todo domingo”, confirma Rose, enquanto olha para a pista a procura do próximo objeto dançante.

“Você nunca me amou, só me quer naquela hora”, esbravejam as dez caixas de som negras camufladas na penumbra do ambiente. Em seguida, outra voz entoa: “Ela não me ama. Ela só quer coisar”. O ritmo e as letras parecem não incomodar Adam Santos. Aos 19 anos, o jovem eletricista não se abala com a sonoplastia: “Meus pais escutam esse tipo de música, então já estou acostumado”. Porém, é visível a percepção de que o morador de Estrela não faz parte do folclore local. Calçando tênis All Star preto e vestindo calça jeans e camiseta justas ao corpo, o rapaz desconversa. “Gosto mesmo é de rock!”. A franja corta o rosto na diagonal e denuncia suas preferências musicais destoantes. “Escuto geralmente Fresno, NX Zero e Simple Plan”, revela. A opção pela Cervejaria Rodeio para passar a noite de domingo não se fundamenta nas melodias: “Estou em Porto Alegre a trabalho e um amigo me convidou para vir pra cá”, ressalva, concluindo que espera “conhecer gente nova”.

Indiferente ou apaixonado, o público sente na música o perfil da casa. Detentor da programação e senhor absoluto das caixas de som, Moisés de Assis reconhece a importância da sonoridade para a movimentação do estabelecimento. “Eu sou um arquivo musical, quem dita as músicas aqui sou eu”, impõe o corpulento gerente. Mas acrescenta: “A música é péssima, é só dor de cotovelo”. Apesar de gerenciar uma casa popular, Moisés não compartilha as mesmas predileções dos seus clientes. “Gosto de Queen, Beatles, Lulu Santos”, contrapõe. Para ele, “o pessoal que consome o tipo de música do bailão é mais alienado”. O proprietário, que fatura em média R$ 150 mil por mês com a Cervejaria Rodeio, resume o apetite sonoro do público: “O gosto popular é muito acentuado”.

“A inspiração vem de nós mesmos”

O imponente palco da Cervejaria Rodeio é destinado às mais diversas bandas do segmento popular. Encravado no fundo do salão, de frente para a vasta pista de dança e de costas para as três cabines do banheiro masculino, o local transforma-se no foco da atenção do público quando o grupo Musical JM desponta atrás das cortinas de TNT cinza. Os sete integrantes do conjunto hipnotizam a platéia, que delira com a voz do vocalista Clayton Borges, de 38 anos.

Com mais de 16 CDs gravados, a banda realiza apresentações em vários estados do país e até internacionalmente. “Acabamos de voltar do Paraguai”, acentua o baterista Denis Casper. As fãs se espremem na frente do palco e esticam os braços na tentativa de acariciar seus ídolos. Juliana Ferraz obtém sucesso. A jovem de 19 anos ignora a cantoria e agarra Clayton pelo pescoço, levando-o para a lateral do palco. Não satisfeita, segundos depois investe contra o outro vocalista, para então descer e se juntar à massa embevecida pelas melodias do grupo. O gaiteiro Adilson Souza explica o segredo da composição das músicas de sucesso: “A inspiração vem de nós mesmos”.

Mas para tocar no palco da Cervejaria Rodeio é preciso, antes, passar pelo crivo de Josi Nascimento. A empresária das bandas trabalha há três anos no clube e se orgulha da carreira que construiu. “Hoje eu tenho mais de 60 grupos na minha agenda”, gaba-se Josi. E a experiência já lhe ensinou os macetes da profissão. “San Marino é a banda que mais lota, tanto é que eu consigo apenas dois ou três shows deles por ano”, explica. O cartaz na parede anuncia a próxima atração: “Banda Matizes - os bad boys do tchê music.

“É barato sem ser depreciativo”

Quem paga os cinco reais cobrados para entrar na Cervejaria Rodeio não desconfia que as cifras necessárias para a manutenção do estabelecimento possam chegar a R$ 50 mil por mês. “Só a conta de luz é em torno de R$ 3 mil”, salienta o proprietário Moisés de Assis. Com água, o gasto cai para R$ 2 mil. Mas a maior despesa vem do aluguel do salão, que ceifa dezoito mil reais do lucro mensal de R$ 150 mil que a população proporciona a Moisés.

A casa emprega 28 trabalhadores fixos, com salário em torno de R$ 960,00. Moisés ressalta que, informalmente, o local gera emprego para garagens, para atendentes do posto de gasolina vizinho ao prédio e para seguranças na rua. “É só fechar a casa e a região está morta”, explica o empresário. A família também participa dos negócios. “Tenho três irmãs que trabalham comigo”, afirma.

Com capacidade para 1.500 pessoas, a média de consumo de bebida do clube é de 180 caixas de cerveja por noite, relativo a uma garrafa por pessoa. A quantidade cai no inverno, quando o movimento despenca. Moisés explica porque a estação quente atiça os freqüentadores: “O público da Cervejaria Rodeio não viaja no verão. São como cobras, é só esquentar e saem para a rua”. Para tornar suportável o calor, o salão conta com 17 ventiladores de teto estrategicamente posicionados nos arredores da pista de dança. Como um criador que valoriza sua obra, Moisés sintetiza o resultado da equação gastos elevados x custos baixos: “O bailão é barato sem ser depreciativo”.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Mas bah, tchê

Dois fatos movimentaram meus neurônios nesta manhã – coisa rara, após uma noite de pouco sono e muito café.

Primeiro: a ex-companheira do ex-governador Leonel Brizola abocanha o Estado e envergonha a História com o pedido – já acatado pela (in)justiça brasileira – de condição de anistiado para o dito cujo. Calma, brizolistas de plantão! O ícone pedetista foi, inegavelmente, exilado pelo regime militar de 1964 e teve os direitos políticos cassados. Até aí, óquei. O que a viúva sacana não deveria ter feito é intercedido pelo falecido em uma questão que nem o próprio, quando vivo, concordava. Brizola, em atitude de nobreza ou marketing político, se recusava a usufruir das benesses ($$$) da Lei da Anistia. Ao que parece, Marília Guilhermina Martins Pinheiro discorda. Não bastasse a já pomposa pensão de R$ 13,7 mil que ganha do governo do Rio Grande do Sul e os R$ 6,3 mil que o governo do Rio de Janeiro lhe paga mensalmente, Marília, graças às perseguições políticas sofridas por Brizola, vai ter revisada – vulgo “aumentada” - a pensão (sim, mais uma) de R$ 2 mil que a Câmara de Deputados gentilmente lhe concede. Detalhe: as duas primeiras mesadas são apenas por ser mulher de ex-governador. Que governou dois estados, ainda! Sortuda ela, não? Inclusive estou pensando em galantear a governadora Yeda Cruzes para, findado o mandato, ganhar uma bagatela mensal às custas do dinheiro público.

Segundo fato tensionador de neurônios

Apartentemente, o Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG) não tem mais o que fazer. Cansados do marasmo de apresentações em rodeios, invernadas, passinho-pra-lá-e-passinho-pra-cá, a gauderiada tradicionalista resolveu entrar em guerra com os gays. Não com todos os gays – pelo menos não abertamente -, mas com aqueles que usam bombacha e dançam nos CTGs. Os guardiões da cultura gaúcha se sentem incomodados com a presença de gestos suaves e passos leves nos corpos dos peões, chegando a afirmar, inclusive, que eles competem em feminilidade com as prendas. Quanto moralismo! Quanto preconceito! Quanto alarde para pouca merda! Sugiro, inclusive, que os peões homossexuais se unam e formem o GTG. Gays Tradicionalistas Gaúchos. Mas isso não se concretizaria. Grande parcela desses guascas, embora de gestos e trejeitos afeminados, nunca iria expor suas bombachas coloridas em praça pública. Além do mais, os GTGs só incentivariam o apharteid sexual, embora preservassem a liberdade individual que os tradicionalistas condenam. Na verdade isso tudo é uma grande baboseira do pessoal do MTG. Baboseira não. Frescura.

*Para ler o artigo que critica a presença homossexual nos CTGs, clique aqui

> Algumas pérolas do caudilho ressentido
p.s: favor desconsiderar os erros de português

"O avanço do homossexualismo no mundo atinge todas as camadas sociais e todas as culturas, é um avanço assustador!"

"Homem acasala com mulher e mulher acasala com homem! Da mesma maneira que cavalo cobre égua e não cavalo, e égua não cobre égua. Égua é coberta pelo cavalo! Isto sim, é natural!"

"Vejo em muitas invernadas gestos de peões que, na verdade disputam com a prenda doçura e meiguice, a tal ponto que, a grosso modo, vê-se duas prendas dançando. Uma travestida de homem!"

"Espera-se que instrutores e patrões fiquem atentos para auxiliarem estes peões, para que os gestos não fiquem femininos demais e com isto prejudiquem o desenvolvimento das nossa Danças Tradicionais. Afinal, nas danças gaúchas, feminina só as prendas!"

sábado, 4 de outubro de 2008

Politiqueta

No terreno lamacento da política, tudo é possível. Deputados escolhem o valor dos próprios salários, trabalham três dias por semana e trocam de partido como quem troca de roupa. Nesse caso, a roupa simboliza não a ideologia, mas as intenções do parlamentar. O ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, por exemplo, manifesta sua maneira não-convencional de agir e pensar através dos excêntricos coletes que o tornam alvo até de manchetes na mídia. Mas isso não é parâmetro. Hoje em dia, até a vacinação de César Cielo contra rubéola rende foto colorida em jornal.

Em Porto Alegre não é diferente. Os candidatos tentam passar credibilidade através da roupa que usam. Luciana Genro, do PSOL, resolveu tirar a imagem de revolucionária feia e rabugenta para contabilizar mais votos. Não funcionou. Pelo menos não para ir ao segundo turno. Houve um impacto inicial, mas logo depois os cachos e o tom da candidata voltaram a encrespar.

Maria do Rosário, do PT, fez diferente. Continuou com as mesmas blusas e blazers em tons vermelho e rosa, mas tirou o sorriso do rosto. A petista vivia sorrindo. Falava sorrindo, criticava sorrindo. Soube até de um caso em que ela roubou a vaga de uma pessoa no estacionamento de um teatro e saiu, adivinhem, sorrindo! É uma inclinação quase monalística para a arte de sorrir.. Nos últimos dias, a candidata resolveu dar uma de séria para variar e deixar os sorrisos para o caso de ir ao segundo turno. Talvez seja a preocupação com a adversária Manuela D’Ávila.

Aliás, não tem como falar de estética das eleições sem falar da candidata do PC do B. Manuela, que já foi obesa na adolescência, traiu Lênin e Marx e adotou o roxo como cor oficial da campanha. A candidata encheu o armário de blusas roxas e esvaziou a campanha de qualquer coerência ideológica que o PC do B possa ainda ter. Mas todo mundo que já pegou num lápis de cor de duas pontas sabe: do lado do roxo, vem sempre o rosa. E a pretensa comunista ainda vai ter que dar muitas mãos de tinta roxa para apagar os tons rosados da sua coligação.

Já Vera Guasso, do PSTU, encarna o vermelho e estampa a foice e o martelo no peito. Por convicção, mantém o estereótipo de que mulher, para ser revolucionária, tem que ser malvestida e despreocupada de coisas fúteis como maquiagem.

E os homens? Esses não merecem comentário. A não ser pelo ministro Carlos Minc, todos se vestem igual. O estilo terno-e-gravata predomina no palanque masculino e banaliza qualquer análise sobre moda na disputa eleitoral. Até o Mano Changes teve que entrar nessa. As mulheres é que enfeitam a corrida pela prefeitura de Porto Alegre e transformam penteados e tecidos em poderosas armas para seduzir o eleitor com suas propostas.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Reducionismos

Dentre todos os clichês e lugares-comuns que é possível ouvir atualmente, nenhum me irrita mais do que a afirmação de que “hoje em dia os valores não são mais respeitados”. Essa expressão está presente em todos os espaços cotidianos. Das conversas de ônibus aos textos acadêmicos. Ela permeia o imaginário brasileiro de que, em épocas passadas, havia um certo nível moral mais elevado. Nada poderia ser mais estúpido.

Eu gostaria de perguntar aos propagadores desse infeliz aforismo: Quando os tais valores foram respeitados? Aliás, a noção de valor, por si só, é arbitrária e extremamente subjetiva. Mas, enfim, admitindo-se que exista um conjunto de doutrinas morais e éticas que supostamente regem uma sociedade, quando eles foram respeitados em escala infinitamente maior? No Brasil-colônia, quando houve um genocídio das culturas nativas, a total exploração das riquezas nacionais e os governadores-gerais cometiam toda sorte de extravagâncias? No Brasil imperial, com a discriminação aos negros recém “libertados” por uma lei que sequer lhes assegurava um mínimo de dignidade? Nas primeiras décadas do século XX, quando a intensa urbanização sofrida pelas metrópoles brasileiras, especialmente o Rio de Janeiro, enxotou os pobres para os morros e tentou transformar, pelo garrote, a Capital da República numa espécie de Paris tupiniquim? Nos anos 1950, época em que Juscelino desestimulou a indústria nacional, arregaçou o país às multinacionais e os brasileiros deram vivas aos enlatados norte-americanos? Não vou nem comentar o período 1960-1980. Décadas em que “lei” e “ordem” tinham significados muito mais obscuros e cruéis. Passamos, então, aos anos 1990. Me pergunto quais valores podem ser extraídos da privatização de uma nação, de homéricos índices inflacionários e de um governo tão podre que consegue se auto-reeleger.

Portando, queridos interlocutores da perda de valores, dêem uma olhadinha para trás antes de saírem por aí escrevendo, gritando, cuspindo que “hoje em dia, os valores não são mais respeitados”. Não vivemos tempos felizes, com certeza. Mas o que é a noção de felicidade, senão a busca não-palpável por uma perfeição que não podemos alcançar? Quem tem autoridade para dizer que o jovem de hoje é pior que o jovem de 40 anos atrás? Os que apregoam a deterioração dos costumes são, na verdade, mentes extremamente conservadoras sem perspectiva histórica. Fazem crer que vivemos em uma era devassa porque eles mesmos não têm coragem de olhar para o próprio umbigo e verem o quanto são responsáveis pela merda em que pisam.

sábado, 21 de junho de 2008

Desgovernadora Yeda na berlinda

É, viva o novo jeito de (des)governar! E viva a habilidade, o dom que o brasileiro tem de rir dele mesmo!

quinta-feira, 5 de junho de 2008

A última noite

Nem as linhas verdes formadas pelo laser o agradam. O fantástico efeito das luzes em néon, que acentuava o branco e o fazia ver nas pessoas um brilho oculto e revelador, já não o divertia como outrora. A decoração lésbica e as grades que lembravam um ringue de luta livre não mereceram mais que dois segundos de contemplação. Assim começou a última noite de Jeremias.

Apática. Num ostracismo quase nostálgico, a cerveja arranhava a garganta e irritava o estômago. Não que não fosse afeito aos prazeres do álcool. Pelo contrário. Mas aquela era a última noite e, longe de configurar uma festiva despedida, moldou-se em um turbilhão psico-emocional que a prodigiosa poção fermentada só faria catalisar.

Jeremias sabia. Seria a última noite, indiscutivelmente. Em suas conversas transcendentais com a Lua, já havia sido prevenido. Embora ultimamente desconsiderasse os conselhos e as opiniões da velha companheira, teve que baixar o olhar e refletir diante da imensidão das suas certezas de matriarca empedernida. Assim sendo, arrumou-se para tal com a crença cega das mentiras que, de tão repetidas, acabam por virar verdades.

As pessoas felizes o irritavam. Dançavam como se disso dependesse as suas vidas. Bebiam como se disso tirassem algum prazer. Sorriam como se assim comunicassem sem dizer. A pequenez das vidas ao redor parecia carimbar em sua pele o aval das últimas noites. Mecanicamente, qual carro que se afoga em gasolina mesmo sem gostar do cheiro e unha que bóia em esmalte mesmo sem sentir a cor, Jeremias enchia o copo de cerveja. Antes de tomar, já sucumbia ao gosto acre e à ânsia de vômito. Mas continuava entornando. No quarto copo obrigou-se a ir ao banheiro e encarar, mais que o fedor e o nojo, seu próprio reflexo no espelho. E como o irritava o ar sabichão e acusador que tinha seu reflexo! Preferia muito mais sua sombra, que era muda e contentava-se em encará-lo com a não-expressão típica das sombras. Um recato que os reflexos de espelhos de bar ainda desconhecem.

Acompanhado da sombra, que fazia um esforço nebuloso para seguí-lo por entre o rastro dos néons e dos jatos coloridos que lançavam fótons em riste, Jeremias pensava em quão privilegiado era, pois apenas ele sabia que aquela era a última noite. Apenas ele poderia prever que o nada viria depois. Que os laseres afiariam-se como facas e decepariam todos os sorrisos dançantes e que as lésbicas sairiam das paredes para engolir a pista com um apetite ferino. Que o chão xadrez ficaria tão movediço quanto areia e dragaria os pés saracoteantes aos domínios inertes daqueles que nunca dançam.

E, por saber, tudo lhe passou a olho nu sem as menores conseqüências. Os laseres sequer raspavam sua cabeça. As lésbicas o evitavam com uma expressão quase amedrontada e o chão sob seus pés era tão firme quanto a certeza de que a última noite da humanidade era seu primeiro dia de glória.

*(tentativa de) conto para a cadeira de Jornalismo Literário.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Renascer

A cor da idade é verde. Verde-água. Verde-musgo. Verde-mar. Daquele mar que só as praias brasileiras conseguem moldar. Mas as paredes de concreto caiadas em verde que compõem a cor da idade estão bem distantes da praia. Ao contrário, estão encravadas no coração de Porto Alegre e fazem parte da pintura de um tal Menino Deus, na avenida Getúlio Vargas.

A via com nome de ditador nanico é o lar de um lar. Lá, entre prédios residenciais, comércio intenso e concentração extraordinária de mendigos, vive Arcanjo Raphael. A casa geriátrica batizada de divindade ostenta com certo orgulho as paredes-mar inauguradas há cinco anos. Um letreiro quadrado e alto formaliza as boas-vindas e informa os visitantes: “Casa de Repouso Arcanjo Rapahel”. As letras são gordas e verdes. O portão caído de ferro cinza não intimida e confere um ar ainda mais recolhido ao prediozinho de dois andares que parece esconder uma idade bem mais antiga que a de seus moradores.

Cerca de 19 funcionários zelam por 27 idosos. Técnicos de enfermagem, faxineiras, cozinheiras e médicos são os moirões que seguram a estrutura de paredes verdes. Cuidam de “donas” e de “seus” que passam o dia a contemplar. Contemplar é a atividade mais espetacular que se aprende num asilo. Contempla-se o passado, o presente e o vindouro. Contempla-se a própria essência do ser. A morte é uma ameaça a cada degrau e a vida entra sussurrante pelo vão das janelas, pelos raios de sol e, de uma maneira bem mais mecânica e pré-fabricada, pela televisão. As poltronas e os sofás estofados abundantes conhecem vidas inteiras. Os quartos, individuais ou coletivos, abrigam histórias que até mesmo as paredes verdes desconhecem. O pequeno pátio de piso frio representa o ápice da existência. Escoltado pelo portão cinza caído, ele configura a tradução mais literal que as palavras liberdade e vida podem significar para os 27 filhos de Arcanjo Raphael.

“Eu moro aqui há quatro anos”, revela Eny. Vítima de um distúrbio mental que a faz parecer meio abobalhada, Eny Terezinha Pereira da Rosa toma uma xícara de achocolatado e come um punhado de bolachinhas amanteigadas. Daquelas que só se encontra em casa de vó. No banquinho do pátio, ao seu lado, aproveitando o sol das 16h, estão dona Dica e dona Joana. Dica, ao contrário de Eny, transparece feições tristes e cansadas. A diabetes lhe tirou o doce da vida e a idade lhe emprestou o ar apático que seu meio-olhar transmite. “Come Dica, come uma bolachinha”, oferece Eny, indiferente à indiferença da amiga. Dona Joana é a mais comunicativa. Fala sobre tudo e sempre tem uma opinião. Como toda idosa de asilo, a vontade de contar é nela a principal arma contra a inércia. Dona Noeli, que conhece as paredes verdes há 10 anos, desde quando a casa ficava na rua Mariante, também conta. Mas conta números. “Quarenta e cinco, quarenta e seis, quarenta e sete...”, e assim continua. Talvez assim repasse os 99 anos de vida em sua memória. O leite que toma não vence a garganta e forma uma lagoa branca na boca até que algum funcionário mais atento a socorra com um pano.

“O meu quarto fica lá em cima”, aponta Eny toda orgulhosa para a janela de seu dormitório. Eny sempre traz no pescoço um colar de pedras negras e marrons. As unhas exibem o esmalte bege discreto e o rosto é a síntese absoluta de seus 74 anos. Cada ruga, cada sulco, cada mínimo traçado na pele denuncia a idade e a inocência de Eny. Os cabelos brancos e curtos formam ondas de pontas cinzas sob o rosto quase retangular. O nariz salta para frente com uma austeridade surpreendente, mas não exagerada. A boca esconde amarelos dentes grandes e espaçados. Mas o mais incrível é o olhar. A maioria dos homens e mulheres que vive no Arcanjo Raphael tem um olhar ensimesmado. Não triste, mas vago. Eny, não. Os olhinhos miúdos movimentam-se com tanta velocidade quanto sua fala. As frases atropelam-se e muitas vezes perdem o sentido. Entretanto, o olhar continua firme em sua rota horizontal, indo da esquerda à direita e freqüentemente repousando em uma das pontas. Quase nunca fita um objeto específico ou uma pessoa.

O quarto individual da dona dos olhos ziguezagueantes denota a simplicidade das necessidades e das vontades de uma vida aos 74 anos. Uma cama de solteiro, uma televisão antiga, uma minigeladeira, um roupeiro diminuto e uma cômoda. Uma, uma, uma. Tudo no singular. A sala do segundo andar, composta por um conjunto de três grandes sofás, é o antro de repouso de Noeli que, envolta em cobertores, continua em sua saga com os números. Dona Me, uma chinesa minúscula de 98 anos, esparrama-se pela poltrona amarela como gema de ovo e parece não notar o videoclipe da Shakira seminua que passa na TV antiga.

A rotina da casa é inabalável e Eny sabe disso. Pergunta freneticamente as horas a cada dez, cinco, dois minutos. “Às 18h eu tenho que jantar. Hoje vai ser sopa”, delicia-se. Boa parte das conversas com suas amigas se resume a novelas, aos afazeres diários da casa e a uma paixão geral. Tão geral que não escapa nem aos brasileiros asilados pelo Arcanjo Raphael. O futebol. “Aqui no segundo andar tem um monte de colorados”, brada Eny, com a certeza de, por isso, estar rodeada de boa gente. As senhoras comentam sobre as proezas do Inter e as baixas do Grêmio com a destreza de um moleque de 14 anos que joga uma pelada com seus amigos todo dia no campinho da esquina.

Muitos pensam que asilo é sinônimo de abandono. Equivocam-se. Nem sempre o ar gelado e a atmosfera nostálgica significam tristeza e saudosismo. Pelo contrário, podem atestar paz e serenidade. E ninguém mais gabaritada para ratificar essas afirmações do que Suzana Helena Morais da Silva, funcionária do Arcanjo Raphael há cinco anos. “Às vezes tu pensas que trabalhar aqui é só chegar, dar banho, limpar eles e deu. Mas não. Tu aprendes muita coisa da vida”, reitera. E não haveria lugar mais propício para o questionamento de Suzana: “Tu vês, tanta coisa que a gente deixa de fazer. Pra quê? Tanta coisa que a gente guarda. Pra quê?”. Os frutos de cinco anos de trabalho permitiram à funcionária ter a coragem de criticar as doutrinas da vida e encará-la como uma veterana que já conhece suas artimanhas.

Na ânsia de enganar a solidão, muitas velhinhas agarram-se a um objeto ou a uma lembrança específica. Noeli se distrai com os números, Dica parece entreter-se com moléculas de ar invisíveis que trespassam seus olhinhos apáticos. Eny encontrou em Cláudia Regina uma razão para existir. Segurando a boneca com a mão e esquerda, sentencia: “Esta é minha filha, Cláudia Regina. Ela vive comigo há dois anos”. No meio das conversas, dos lanches e de qualquer outra ocupação que Eny possa ter, do nada, como se obedecesse a uma ordem vertical do cérebro, ela coloca a boneca rente à testa e balbucia um “né, minha filha?”, ou então algo como “ohh Cláudia Regina”, com aquela voz chorosa de adulto ao falar com cães e bebês. E inimigo de Cláudia Regina é inimigo mortal de Eny. Ela desdenha quem não gosta de bonecas e não suporta que façam pouco caso da filha. O amor de mãe fictícia é real e comprova-se pelo travesseirinho esponjoso que ocupa um lugar privilegiado ao lado do seu: ”Ela dorme comigo toda noite”.

Dentre todas as certezas que se pode ter sobre um asilo, nenhuma é maior do que a de que, uma vez velho, volta-se a ser criança. Assim como em qualquer outra casa de repousou, na Arcanjo Raphael os velhinhos precisam ser alimentados, lavados, tapados, medicados e toda uma série de ados que ficam perdidos entre o final da infância e o começo da velhice. Talvez seja uma maneira de enganar ou selar de vez o ciclo da vida. Volta-se ao começo. É quase como um mecanismo de defesa para enganar a idade ou a morte. É um renascimento que vai além do enxugamento do corpo e da mirradeza do esqueleto. É algo incompreensível até que se chegue nele. Só os 27 filhos do Arcanjo Raphael sabem, e como sabem, que os segredos da idade e do renascimento não podem ser alcançados por aqueles do lado de fora das paredes verdes.