Ir ao shopping center aos sábados é uma experiência que eu não recomendaria nem ao meu mais feroz inimigo. Bem, talvez a ele sim. Mas não ao segundo mais feroz.
O ambiente é selvagem. E digo isso sem pudor de ferir a pretensa nobre classe que habita essas várzeas. Requer um pouco de esforço mental, mas garanto que é possível imaginar as madames, as patricinhas retardadas, os emos e os playboyzinhos guerreando na fila do Burguer King ou disputando à unha um milk shake no Bob’s. As lojas são intransitáveis - o risco de se ver uma criança perdida é enorme. Eu mesmo, quando piá, me perdi uma vez num shopping. E olha que naquela longínqua década de 90 o crescimento demográfico nem era tão estrondoso assim. Ta, até era, mas a gente sempre vai pensar que “naquele tempo era melhor”, né?
Continuando meu safári, após vencer a luta por um digno milk shake pós-almoço, a batalha seria atravessar o Iguatemi até o Bourbon Country. Os nomes pomposos em nada combinavam com o ambiente. O corredor térreo do Iguatemi parecia mais a Andradas em horário de pico. O ar condicionado simplesmente não vencia a avalanche de bafos, respiros e suores que impregnava o ambiente. A passagem de um shopping a outro, atravessando uma avenida de duas mãos, poderia ser facilmente confundida com a Esquina Democrática. Não fossem, é claro, os perfumes caríssimos, os saltos altíssimos e os narizes empinadíssimos que por lá transitavam. E faltava, também, alguém distribuindo panfletos e gritando palavras de protesto num megafone velho.
Mas o dia não terminou por aí. Apesar de todas essas intempéries, ainda tive a brilhante idéia de ir ao cinema. Não podia ter sido mais infeliz. Fila enorme para comprar ingressos, fila enorme para entrar e paciência maior ainda para assistir ao filme. Sim, pois uma manada de uns 20 (verdade, eram em torno de 20!) pré-adolescentes invadiu a sala. Armados com pipocas barulhentas, bonés virados para trás e minissaias hereges - além do timbre nocauteante típico de todos os jovens de 13 anos -, eles subiam as escadas como se fossem os donos da sessão. Demoraram os 10 minutos que precedem o começo do filme apenas para escolher suas nobres acomodações. Os 10 minutos iniciais foram regados a gritos, risinhos e toda sorte de espalhafatos. Não deu outra, o segurança do cinema foi até lá chamar a atenção dos pobres anjinhos. A medida funcionou por uns 15 minutos. Após a primeira cena de susto, mais gritos e brincadeirinhas típicas daquela fase retardada da adolescência. E, dessa vez, deu briga. “Pô, dá pra calar a boca aê?!”, gritou uma mulher, em alto carioquês. “Respeitem os outros que estão tentando ver o filme”, continuou. No mesmo instante, dois seguranças robustos sobem os degraus e ameaçam expulsar o primeiro que soltar o próximo risinho aparentemente inocente. A sessão transcorreu em relativa harmonia até o final. “O orfanato” nem é um filme tão bom assim. Aos moldes de “Os outros”, o longa mistura espiritismo com uma boa dose de suspense e alguns sustos esporádicos. O final até que é interessante.
Após esse dia atípico, na volta para casa, ao pensar num chuveiro, numa cama e na perspectiva de uma comida caseira, podia ouvir a música ecoar em meus ouvidos: “estou a dois passos do paraíso”. Voltei à toca com duas certezas em mente. Gustave Le Bon estava certo quando teorizou que as massas são bárbaras e irracionais, e os sábados não foram feitos para serem passados no shopping!
O ambiente é selvagem. E digo isso sem pudor de ferir a pretensa nobre classe que habita essas várzeas. Requer um pouco de esforço mental, mas garanto que é possível imaginar as madames, as patricinhas retardadas, os emos e os playboyzinhos guerreando na fila do Burguer King ou disputando à unha um milk shake no Bob’s. As lojas são intransitáveis - o risco de se ver uma criança perdida é enorme. Eu mesmo, quando piá, me perdi uma vez num shopping. E olha que naquela longínqua década de 90 o crescimento demográfico nem era tão estrondoso assim. Ta, até era, mas a gente sempre vai pensar que “naquele tempo era melhor”, né?
Continuando meu safári, após vencer a luta por um digno milk shake pós-almoço, a batalha seria atravessar o Iguatemi até o Bourbon Country. Os nomes pomposos em nada combinavam com o ambiente. O corredor térreo do Iguatemi parecia mais a Andradas em horário de pico. O ar condicionado simplesmente não vencia a avalanche de bafos, respiros e suores que impregnava o ambiente. A passagem de um shopping a outro, atravessando uma avenida de duas mãos, poderia ser facilmente confundida com a Esquina Democrática. Não fossem, é claro, os perfumes caríssimos, os saltos altíssimos e os narizes empinadíssimos que por lá transitavam. E faltava, também, alguém distribuindo panfletos e gritando palavras de protesto num megafone velho.
Mas o dia não terminou por aí. Apesar de todas essas intempéries, ainda tive a brilhante idéia de ir ao cinema. Não podia ter sido mais infeliz. Fila enorme para comprar ingressos, fila enorme para entrar e paciência maior ainda para assistir ao filme. Sim, pois uma manada de uns 20 (verdade, eram em torno de 20!) pré-adolescentes invadiu a sala. Armados com pipocas barulhentas, bonés virados para trás e minissaias hereges - além do timbre nocauteante típico de todos os jovens de 13 anos -, eles subiam as escadas como se fossem os donos da sessão. Demoraram os 10 minutos que precedem o começo do filme apenas para escolher suas nobres acomodações. Os 10 minutos iniciais foram regados a gritos, risinhos e toda sorte de espalhafatos. Não deu outra, o segurança do cinema foi até lá chamar a atenção dos pobres anjinhos. A medida funcionou por uns 15 minutos. Após a primeira cena de susto, mais gritos e brincadeirinhas típicas daquela fase retardada da adolescência. E, dessa vez, deu briga. “Pô, dá pra calar a boca aê?!”, gritou uma mulher, em alto carioquês. “Respeitem os outros que estão tentando ver o filme”, continuou. No mesmo instante, dois seguranças robustos sobem os degraus e ameaçam expulsar o primeiro que soltar o próximo risinho aparentemente inocente. A sessão transcorreu em relativa harmonia até o final. “O orfanato” nem é um filme tão bom assim. Aos moldes de “Os outros”, o longa mistura espiritismo com uma boa dose de suspense e alguns sustos esporádicos. O final até que é interessante.
Após esse dia atípico, na volta para casa, ao pensar num chuveiro, numa cama e na perspectiva de uma comida caseira, podia ouvir a música ecoar em meus ouvidos: “estou a dois passos do paraíso”. Voltei à toca com duas certezas em mente. Gustave Le Bon estava certo quando teorizou que as massas são bárbaras e irracionais, e os sábados não foram feitos para serem passados no shopping!
