Ao entrar, municiei-me com o mp3 e segui viagem acompanhado dos meus cantores favoritos. A bateria estava carregada e deveria durar um bom tempo – eu estava seguro. Podia até dormir um pouco. Cometi então o erro fatal dos que andam por lugares incógnitos: cochilei. Ao abrir novamente os olhos, estava numa estrada de chão onde mal havia espaço para um carro. Mais ainda, estava num morro. Subindo! Pela janela só se via poeira e vacas. Vacas e poeira. O veículo tremia como barriga de criança em consultório de dentista. Meu estômago tremia. Eu tremia.
Putz, será que peguei o ônibus errado? Será que estão me levando para Cacimbinhas do Sul ou qualquer um desses locais inexistentes que atormentam o pensamento dos andarilhos? Aliás, andarilho era o que não faltava naquele ônibus. E eu estava bem próximo da porta de embarque, logo, cada vez que alguém entrava (sim, havia também seres humanos naquela parte do mundo) eu era inundado pelo fluxo constante de poeira.
Já havia se passado uma hora e nenhum sinal da civilização por perto. As outras pessoas pareciam todas iguais. Com expressões apáticas e roupas humildes. As mãos e os pés calejados e os rostos pedregosos traziam a marca do trabalho encravada na pele. Pareciam mais fantasmas do que pessoas. Não consegui mais ouvir música. Estava vidrado naquele trajeto macabro que me conduzia a um destino incerto. Parecia que eu fazia parte de um livro de Stephen King, com direito a distorção da realidade e tormento psicológico.
Pois bem, após mais um tempo entre o barro e o pó, eis que surge a miragem. Ao longe, vejo uma faixa negra que corta – em linha reta, felizmente – a estrada com uma determinação ardilosa. Era o asfalto! Tudo bem que eu ainda assim não conhecesse a estrada. Mas era asfalto! Macio, retilíneo e comprido como todo asfalto. Sua extensão ultrapassava a linha do horizonte e me reconfortava imensamente. E continuou me reconfortando apenas por alguns minutos. Um pouco adiante, o pesadelo à la Stephen King recomeçou. O ônibus entrou em outra ruela de chão batido perturbadoramente igual às anteriores.
O celular estava sem sinal e eu estava sem paciência. Sem esperanças, também. Só queria ver alguma paisagem conhecida. Alguma casa familiar. Não sei quando, mas em algum momento entre 17h30min e 20h cheguei em casa. Cheguei à terrinha. Entrei na cidade por uma rua que sequer sabia que existia. Entrei por becos nunca explorados, virgens aos meus olhos de bicho assustado que retorna ao lar. O ônibus Citral da linha Taquara – Santo Antõnio estacionou na rodoviária e me devolveu ao chão e à realidade. Agora, esgotado e tão apático quanto os demais passageiros, eu só precisava de uma coisa. Não queria vomitar. Nem comer, apesar de estar enjoado e com fome. Queria apenas um banho!