quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

The Passenger*

O ônibus era velho. Muito velho. Antes de embarcar, o motorista saiu com um martelo e testou a consistência dos pneus (que tinham quase o meu tamanho). “É uma medida de rotina”, pensei, tentando me confortar um pouco. Eram 17h30min e eu estava num lugar desconhecido. Minha única certeza era que dentro de uma hora, no máximo, estaria em casa. Ledo engano. Fiquei peregrinando entre paragens desérticas e totalmente inóspitas durante duas intermináveis horas.

Ao entrar, municiei-me com o mp3 e segui viagem acompanhado dos meus cantores favoritos. A bateria estava carregada e deveria durar um bom tempo – eu estava seguro. Podia até dormir um pouco. Cometi então o erro fatal dos que andam por lugares incógnitos: cochilei. Ao abrir novamente os olhos, estava numa estrada de chão onde mal havia espaço para um carro. Mais ainda, estava num morro. Subindo! Pela janela só se via poeira e vacas. Vacas e poeira. O veículo tremia como barriga de criança em consultório de dentista. Meu estômago tremia. Eu tremia.

Putz, será que peguei o ônibus errado? Será que estão me levando para Cacimbinhas do Sul ou qualquer um desses locais inexistentes que atormentam o pensamento dos andarilhos? Aliás, andarilho era o que não faltava naquele ônibus. E eu estava bem próximo da porta de embarque, logo, cada vez que alguém entrava (sim, havia também seres humanos naquela parte do mundo) eu era inundado pelo fluxo constante de poeira.

Já havia se passado uma hora e nenhum sinal da civilização por perto. As outras pessoas pareciam todas iguais. Com expressões apáticas e roupas humildes. As mãos e os pés calejados e os rostos pedregosos traziam a marca do trabalho encravada na pele. Pareciam mais fantasmas do que pessoas. Não consegui mais ouvir música. Estava vidrado naquele trajeto macabro que me conduzia a um destino incerto. Parecia que eu fazia parte de um livro de Stephen King, com direito a distorção da realidade e tormento psicológico.

Pois bem, após mais um tempo entre o barro e o pó, eis que surge a miragem. Ao longe, vejo uma faixa negra que corta – em linha reta, felizmente – a estrada com uma determinação ardilosa. Era o asfalto! Tudo bem que eu ainda assim não conhecesse a estrada. Mas era asfalto! Macio, retilíneo e comprido como todo asfalto. Sua extensão ultrapassava a linha do horizonte e me reconfortava imensamente. E continuou me reconfortando apenas por alguns minutos. Um pouco adiante, o pesadelo à la Stephen King recomeçou. O ônibus entrou em outra ruela de chão batido perturbadoramente igual às anteriores.

O celular estava sem sinal e eu estava sem paciência. Sem esperanças, também. Só queria ver alguma paisagem conhecida. Alguma casa familiar. Não sei quando, mas em algum momento entre 17h30min e 20h cheguei em casa. Cheguei à terrinha. Entrei na cidade por uma rua que sequer sabia que existia. Entrei por becos nunca explorados, virgens aos meus olhos de bicho assustado que retorna ao lar. O ônibus Citral da linha Taquara – Santo Antõnio estacionou na rodoviária e me devolveu ao chão e à realidade. Agora, esgotado e tão apático quanto os demais passageiros, eu só precisava de uma coisa. Não queria vomitar. Nem comer, apesar de estar enjoado e com fome. Queria apenas um banho!

* Qualquer alusão à musica do Iggy Pop não é mera coincidência.

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Um mal sigiloso

Existem coisas que simplesmente não nasceram para mim. Coisas que não combinam ou que, de alguma maneira misteriosa, não se adaptam a minha ínfima existência terrena. Poderia enumerar uma lista mirabolante dessas efemérides. Contudo, a mais significativa e inexplicavelmente horripilante delas é aquela brincadeira (divertida?) típica das festas de final de ano chamada ironicamente de amigo secreto.

Várias são as lendas que tentam explicar o seu surgimento. Uns dizem que surgiu na Inglaterra, a partir do século 15, quando se estabeleceu a noite do dia 24 de dezembro para a troca de presentes. Fontes históricas afirmam que a prática é muito mais arcaica. Viria desde a Grécia antiga onde, em algumas datas festivas, costumava-se presentear pessoas influentes que eram escolhidas ao acaso. A versão que mais me parece verossímil, contudo, é a de que o amigo oculto teria sido uma atividade recreativa adotada nos Estados Unidos durante o início de seu processo industrial. Segundo essa variante, os funcionários eram obrigados a participar de uma confraternização onde tinham que presentear os companheiros de trabalho. O sorteio teria sido a melhor forma encontrada para se evitar que alguém ficasse sem presente devido a brigas internas ou à impopularidade junto aos colegas. Pode-se observar, então, que a inocente brincadeira natalina emerge de uma prática altamente autoritária e terrivelmente desestimulante. Sim, pois quem não quer participar se vê obrigado a fazê-lo. O que acaba gerando um ciclo de descontentamento que, com toda a certeza que os meus 19 anos de jogador pífio desta escabrosa seita me conferem, atingirá de forma letal e fulminante o pobre presenteado. O suposto “amigo”.

Com o passar do tempo e a conseqüente evolução do homem, aboliu-se a obrigatoriedade do amigo secreto. Em partes, é claro. A pressão social para que uma pessoa participe dessa atividade senil é imensa. Aquele que, por puro exercício de seu livre-arbítrio, não integrar a roda do amigo oculto pode ser informalmente excluído do grupo ou, de uma maneira mais discreta, deixado de lado. Deveria haver um decreto, uma medida provisória ou um projeto de lei que estabelecesse seguridade social aos não-participantes do amigo secreto. Seria uma pauta tão importante que a CPMF sequer valeria os subterfúgios que estão sendo usados para comprá-la. Dá para imaginar o Congresso Nacional em polvorosa para votar tal medida. Oposição e situação se uniriam em prol do bem comum. Realmente, seria um fato histórico. Uma página a mais nos livros didáticos.

Enquanto isso não acontece, sigo com a minha sina amigosecretística, sem coragem de deixar de participar e com a eterna esperança de que um dia me darei bem. Doce ilusão. Integro a seita desde que nasci. Na minha família, até os bebês participam. Numa subversão total dos princípios, as respectivas mães ficam encarregadas do “amigo” da criança que sequer pode responder por si mesma. Não tenho escolha. E, apesar de tomar parte no jogo desde muito antes de aprender os pedregosos meios pelos quais ele se impõe, nunca tive o prazer de sair feliz da brincadeira. Sabe aquela pessoa mala da família? Sim, ela me tirava. Ou vice-versa. Quanto aos presentes, bom, vou me abster de comentá-los. Até porque o melhor não é o bem físico que pode trazer o amigo secreto, mas, sim, os benefícios psico-sociais que ele acarreta.

A mim, obviamente, nunca trouxe nenhum. O amigo oculto é uma atividade totalmente previsível para os meus 19 anos de experiência. E não se trata de clarividência. Muito menos de qualquer tipo de agouro ou rabugice. No meu caso, o amigo secreto é a mais pura comprovação física da teoria nietzscheziana do eterno retorno: tudo se repete em algum momento da vida. Pretendo um dia ser forte e autodidata o suficiente para quebrar as amarras que me prendem a esse jogo macabro. Me livrar desse inimigo clandestino que me persegue todos os anos. Até lá, resta apenas fazer a já tão ensaiada cara de bunda e depois, quem sabe, escrever um texto para exorcizar o atroz ritual.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Os banheiros e a consciência social

Dentre os tantos clichês que a contemporaneidade nos impõe, um é, certamente, indubitável. Vivemos na era da informação. Em todo o momento, somos bombardeados por uma torrente de signos, palavras e expressões que buscam a nossa atenção. Em meio ao frenesi desvairado da internet e à apatia sensacional da televisão, perdemos um pouco a capacidade de prestar atenção às futilidades cotidianas. Como as frases de banheiro coletivo.

Um lugar quase sagrado, o banheiro é onde entramos em contato com o extremo ser interior. Possui diversas utilidades (desde a higiene básica até os lampejos de narcisismo que fazem a pessoa ficar horas em frente ao espelho) e não é reconhecido. Ninguém louva essa peça fundamental da casa. Ninguém quer saber do banheiro. Usam-no apenas pra fazer merda, literalmente. Mas não percebem que é no bucólico recinto que pensamos sobre as coisas da vida, refletimos os pequenos fatos do dia e, até mesmo, cantamos desesperadamente as melodias mais inesperadas ao chuveiro. Quem nunca desenterrou aquela música que sequer lembrava existir na hora do banho?

E nos toaletes públicos aparece uma fantástica contradição. Não somos mais os únicos responsáveis pelos dejetos que lançamos. Na porta ao lado pode haver alguém na mesma situação. E na do lado da do lado, também. Todas padronizadas, com o mesmo tamanho e escondendo as mesmas intimidades. Esse caráter coletivo da podridão do animal humano deve, misteriosamente, ativar um certo comportamento expressivo ancestral. As portas possuem desenhos os mais diversos. Algo que lembra as pinturas rupestres dos nossos primos neandertais. Será que eles também as concebiam em momentos de profunda introspecção? Não há como dizer, mas as pinturas banheirestres merecem mais atenção.

Entre obscenidades e xingamentos a times de futebol rivais, pode-se achar verdadeiras pérolas. Já vi de tudo. Desenhos de sexos expostos, Bob Marley com suas cannabis e toda a sorte de frases de caminhoneiro. Preciosidades como “Nas curvas do teu corpo capotei meu coração” mostram que o ser humano também pode poetizar enquanto defeca. Entretanto, me prendeu os olhos, dia desses, as manifestações revoltadas encravadas numa porta. “Universidade estatal já”, “fora à PUC” e “educação para todos” cativaram meu inconsciente. Ainda que um tanto exageradas, as frases mostram uma consciência social incipiente. Não estavam pichadas nas paredes sujas da Av. Borges de Medeiros, nem em qualquer faixa de partido político. Estavam na porta de um banheiro público. Ao lado, o mesmo misterioso autor ou autora escrevera “igualdade aos analfabetos e excluídos, fim às (crase minha) desegualdades sociais”. Em seguida, outra grafia e outra tinta destacavam o erro monstruoso da palavra desigualdade e assinalavam: “por que será que ainda há desigualdade?”. Menosprezei o tom preconceituoso do comentário em prol de um pensamento maior. O que se assistia era a um debate travado às portas do banheiro! Algo magnífico e inédito para mim, eterno reparador dos aforismos banheirescos. Pensei em puxar uma caneta e revidar. Xingar os dois. Relutei. Imaginei as faxineiras tendo que esfregar incessantemente as portas e achei melhor não colaborar com a sujeira.

Mas o pequeno debate me instigou. Certamente, o ser humano está evoluindo a um patamar considerável. Ser capaz de pensar nos problemas sociais enquanto realiza atividades totalmente intimistas é um sinal de, no mínimo, esclarecimento próprio. Sinal de que não olhamos apenas para a própria merda, mas, sim, para a merda alheia. Para o que todos nós fizemos ou ainda fazemos de ruim e que culmina nessa grande pocilga brasileira. Um dia alguém ainda puxa a descarga.

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Crime feminino

Se eu fosse mulher, seria uma ladra. Uma assaltante de bancos, mais especificamente. As mulheres são tolas, ainda não perceberam o enorme potencial que possuem. Há todo um nicho mercadológico feminino para as que quiserem seguir carreira.

Aconteceu ontem, antes de ontem e sempre. Vem acontecendo há um ano, desde que abri contas em duas redes bancárias do país. Primeiro, vem o apito. Em seguida, uma voz metálica e acusadora denuncia: “Você está portando objetos metálicos, coloque-os no compartimento ao lado e tente novamente.” Mas as chaves e o celular já estão no tal compartimento. O que é que falta, afinal? É aí que acontece. Abro a mochila e, não satisfeitos, os seguranças ordenam que eu folheie o caderno e revele tudo o que há nos seus compartimentos. Todas as folhas soltas e amassadas, os pacotes de chicletes e bolachas recheadas são expostos. Livros, contas para pagar, nada passa despercebido ao olhar atendo dos guardas. “Tudo bem”, penso, “afinal é o procedimento padrão deles, é para a segurança do banco”. Após o penoso processo, que provavelmente irrita a todos os que estão esperando, posso finalmente entrar no paraíso capitalista.

O clima de uma agência já não é muito confortável. Aquele cheiro de ar artificial, os caixas milimetricamente organizados e o excesso de sinalização produzem um misto de segurança e desconforto. Como se tudo estivesse perfeito, esperando por você. Até cafezinho eles oferecem! Até você fazer sua conta, é claro.

Mas a surpresa maior é a facilidade com que as mulheres têm acesso ao local. Se a voz acusa que um homem está portando objetos metálicos, ocorre todo o criterioso método já descrito para a revisão. Entretanto, se uma mulher é denunciada, o segurança lança um olhar complacente e permite que a dama se dirija ao balcão de atendimento. A revisão, no máximo, restringe-se a uma olhada não muito discreta nas curvas suntuosas da fêmea, se ela as possuir, é claro. Ela poderia facilmente portar uma arma e mesmo assim entrar. Idosas, então, sequer são olhadas. Passam direto, como se a porta não existisse. Imagine, se eu fosse uma velha, ganharia a vida assaltando bancos. Sem mais problemas financeiros. Afinal, quem suspeitaria de uma senhora aparentemente inocente ou das curvas bem delineadas de uma jovem estagiária? E as mulheres ainda reclamam mais direitos! Já possuem até o direito de roubar! O que mais falta reivindicar? Ainda bem que não se dão conta do poder que têm nas mãos. Ou melhor, nas curvas. Caso contrário, nem a década de 70 veria tantos assaltos a banco. Seria o fim do capitalismo moderno.

Estupefato, resigno-me a minha inferioridade de macho. Espécie recessiva e minoritária. Falho de curvas suntuosas e de regalias em agências bancárias. Eternamente sujeito a humilhações mochilescas para poder pagar uma conta.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Rosas ao preconceito

“Não”. Foi com essa palavra que ela transformou a história dos direitos civis nos Estados Unidos. Tudo o que Rosa Parks queria era voltar para casa tranqüilamente após uma tarde de trabalho. A costureira negra de 42 anos acabou o dia na prisão.

O ano era 1955. Na cidade de Montgomery, estado do Alabama, as leis racistas imperavam. Não era diferente em todo o sul do país. A escravidão havia sido abolida há quase um século (1865), mas, na prática, pouca coisa mudou. Dentre as exigências da ignorância, estava a de que os negros deviam sentar-se somente nos bancos traseiros dos ônibus e, se o veículo estivesse lotado, deveriam ceder o lugar aos brancos.

Rosa Louise McCauley nasceu no Alabama em 1913. Filha de uma professora, ela aprendeu desde cedo a importância dos valores humanos. “Minha mãe era professora em uma pequena escola, ela acreditava em liberdade e igualdade para as pessoas.” Após concluir os primeiros estudos, Rosa mudou-se para Montgomery com seu marido, Raymond Parks. Lá, em 1943, juntaram-se à National Association for the Advanced of Colored People (NAACP), entidade que defendia o direito dos negros. “Eu trabalhei em inúmeros casos com a NAACP, mas nós não tínhamos publicidade. Era mais uma questão de tentar desafiar o poder e deixá-lo saber que nós (os negros), não queríamos continuar sendo cidadãos de segunda classe”, declarou, em entrevista ao site www.achievement.org.

Aconteceu no dia 1º de dezembro de 1955. A costureira saiu do trabalho numa loja de departamentos e sentou no primeiro banco para pessoas de cor, no meio do ônibus. Três paradas mais tarde, o veículo encheu e faltou lugar para um homem branco. Como regia a lei, o motorista ordenou que quatro passageiros negros se levantassem. Rosa recusou. Foi considerada culpada, teve que pagar fiança para sair da cadeia e perdeu o emprego.

O episódio de 1955 não foi, contudo, algo novo em sua vida. Ela sempre lutou pela igualdade de direitos. O que aconteceu naquela tarde de 1º de dezembro foi uma inevitabilidade. “O incidente não foi planejado, mas já era esperado por causa de toda a tensão que havia entre negros e brancos na época”, confessou a costureira em uma entrevista dada pouco antes de morrer à revista Aventuras na História.

Seu pequeno gesto resultou num boicote geral dos negros à empresa de ônibus da cidade. Sob a liderança de um então desconhecido pastor local, Marin Luther King Jr, a população negra de Montgomery ficou 381 dias sem pisar num coletivo. “Nós tínhamos outras opções, como ir a pé ou de carona para o trabalho. Já o sistema de transporte não, pois poucos brancos andavam de ônibus. Sem os negros, os prejuízos foram enormes”, afirmou Rosa. O resultado do protesto foi significativo. Em 21 de dezembro de 1956, a Suprema Corte norte-americana declarou inconstitucionais as leis racistas do Alabama.

Em 1957, devido a constantes ameaças de morte, Rosa mudou-se com seu marido para Detroit, no estado de Michigan. Trinta anos depois, criou o Instituto Rosa & Raymond Parks para o Autodesenvolvimento. Na organização, a viúva (Raymond faleceu em 1977) e uma equipe de voluntários trabalham com mais de seis mil crianças e jovens entre 11 e 17 anos. Como Rosa bem define, “nosso trabalho é fazer com que cada um descubra o que há de melhor em si mesmo”.

Ao refletir sobre os acontecimentos mais marcantes de sua vida e do mundo em geral nos últimos 48 anos, Rosa tem consciência de que ainda há muito a ser feito. “Vivíamos uma segregação racial legalizada e andávamos de cabeça baixa. Os brancos pensavam que eram superiores e não houve um único dia em que eu não tenha me sentido humilhada. Hoje temos os mesmos direitos que eles. Mas ainda há muita desigualdade e injustiça. O caminho é longo.” E, para ela, certamente o caminho foi extenso. O reconhecimento pelo seu esforço, porém, foi tão nobre quanto as ações que realizou em vida. Entre dezenas de prêmios, Rosa recebeu do então presidente Bill Clinton, em 1999, a Medalha Presidencial da Liberdade, a maior condecoração oficial que um civil norte-americano pode almejar.

Na noite do dia 24 de outubro de 2005, aos 92 anos de idade, a pioneira morreu por causas naturais. Seu enterro foi comparável ao de uma autoridade, contando, inclusive, com a presença do presidente George Bush. A vida e a obra humanitária da “mãe do movimento dos direitos civis”, como ficou conhecida, não será jamais esquecida. Ao menos todo dia quatro de fevereiro ela será lembrada no estado de Michigan. Às segundas-feiras, após essa data, é sempre feriado. É o Dia de Rosa Parks.


Fotos: achievment.org

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Rota de sangue

Ao abrir o livro Rota 66, de Caco Barcellos, abre-se uma janela para a realidade. As 274 páginas que compõem a impressionante história passam pelos olhos tão rápido quanto o é a narrativa. Ao mergulhar no terrível mundo do crime praticado pelos que deveriam condená-lo, não há como sair ileso. Não há como não se revoltar com o dossiê extremamente bem fundamentado preparado pelo repórter. Não há como não se envolver com as histórias tristemente reais contadas com todo o tino que só um jornalista profissional conseguiria ter.

Rota 66 é muito mais do que um livro sobre, como bem diz o autor, “a polícia que mata”. Trata-se de uma obra que denuncia todo um complexo sistema de execução do mais fraco sustentado pela Polícia Militar de São Paulo. A Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar) é uma unidade de elite da polícia paulista e contava, na época, com apenas 50 membros divididos em 10 caminhonetes modelo Veraneio. Cada veículo acomodava quatro soldados (mais um comandante) armados com pistolas, metralhadoras e diversos tipos de bombas.

Os policiais, na teoria, deveriam formar um grupo ágil e bem equipado de repressão ao crime nas ruas da maior cidade do país. Na prática, porém, constituíam um esquadrão da morte. Não prendiam, torturavam e matavam. Atiravam primeiro, perguntavam depois. Mesmo em tempos de ditadura (a Polícia Militar foi criada em 1970, no auge da repressão no Brasil), é chocante saber que a ignorância e a intolerância chegaram a níveis tão extremos, num patamar de brutalidade e barbárie, pode-se dizer.

Caco Barcellos conduz o leitor a uma viagem tortuosa por uma São Paulo marcada pelo crime e pela violência policial. O jornalista conta, em detalhes, como agiam os matadores e como agia, também, o nefasto sistema jurídico-político que lhes concedia total liberdade e impunidade. O livro é fruto de anos de pesquisa em delegacias, necrotérios e tribunais. Ao final, Caco consegue traçar um perfil criterioso das vítimas e dos assassinos. Além de identificar, pelo menos, quatro mil e duzentas das 12 mil vítimas da PM entre 1970 e 1992. Os números são assombrosos, comparáveis aos de uma guerra. Desse total, 65% eram pessoas inocentes. Gente que nunca havia praticado um crime.

O mais deprimente, entretanto, é constatar que não era um ou outro policial que matava. Era todo um sistema que favorecia, literalmente, com prêmios e promoções, os maiores matadores da PM. Não importa se era inocente ou culpado, tinha que morrer. Apenas um fator era determinante: ser pobre. Sem ter condições de reivindicar seus direitos, a população de baixa renda era o alvo primordial dos assassinos fardados. Pobre, para eles, era igual a ladrão, a marginal. O único episódio em que as vítimas foram jovens ricos da elite paulista, o caso Rota 66, não foi, contudo, muito diferente dos demais. Apenas a repercussão na imprensa foi maior. Os responsáveis pelo crime saíram ilesos.

Publicado em 1992, Rota 66 já foi editado 37 vezes, sendo a última em 2002. Não há, porém, como descrever a sensação experimentada ao terminar de ler a obra. É como se faltassem páginas. É como se todo aquele revoltante aparato pró-morte ainda estivesse ativo. E, de fato, está. A democracia já está instaurada, mas as arbitrariedades ainda existem. Faltam mais Cacos Barcellos para retratar as histórias das atuais vítimas.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Morto


Imagem: Janela Publicitária

Após o fatídico episódio do assalto, tive que providenciar um celular novo. A linha já estava bloqueada, pronta para encarnar em outro aparelho. Só faltava o suporte físico. Mas a Vivo não colaborou!

Segunda-feira, 15 de outubro. Dois dias após o roubo. Entro bem tranqüilo na loja da operadora no shopping Iguatemi. O movimento não é muito grande no horário do almoço. Espero na recepção. Espero... Finalmente alguém me “atende” (falar com a pessoa sem sequer olhá-la não pode ser considerado atendimento). Ganho uma ficha de espera de número 35. Olho para o visor e, alegremente, constato que o contador já marca o 27º cliente. “Não deve demorar muito, pensei.” Ingenuidade minha. Durante meia hora eu penei entre as almofadinhas roxas e os pufes laranjas da loja. Todos, principalmente os funcionários, pareciam estar alheios a minha agonia. O marcador parecia ter pifado no 27.

Passados mais alguns minutos, resolvo desistir. Vou para outra loja, no mesmo shopping. Lá, sou parcialmente bem atendido, mas, ao menos, consigo comprar um celular. Comprar, apenas. Pois, segundo a funcionária, “o sistema está fora do ar”. Que ótimo! Uma das maiores, senão a maior, empresa de telefonia móvel do sul do país está fora do ar. “É devido ao fluxo pós-feriado”, tenta explicar-se a tal de Luciane, com seu crachá mal feito enroscado no pescoço. Tudo bem, não vou criar caso. Pego meu dinheiro de volta e passo para uma terceira tentativa. Dessa vez, no Bourbon.

Lá, a situação também não é das melhores. O sistema continua fora do ar, a mulher que me atendeu parecia ter acabado de receber alta do hospital por tentativa de suicídio e, ainda por cima, não tinha o miserável aparelho que eu queria. O mais simples e irrisório modelo. Aliás, tinha, mas era apenas “para demonstração”, assegurou-me a maníaca atendente. Depois de ter perdido uma tarde inteira nessa cruzada, desisto. Volto pra casa derrotado, sem celular e com duas fichinhas de ônibus a menos.

Mas, como diz Chico Buarque, “amanhã há de ser outro dia”. Tomara! Volto ao Iguatemi, dessa vez convicto de que nenhuma pane de sistema me privará do direito à comunicação telefônica. A loja da vivo está mais deserta ainda. Pego a senha e, rapidamente, sou “atendido”. Dessa vez olhavam para mim. Só olhavam. A atendente parecia estar muito ocupada conversando com a colega sobre o final de semana. “Quem é Cínara?”, me pergunta a moça. “Ãh..ah, sim, é minha m..”. “O celular ta no nome dela, não posso fazer nada”. No limite que a minha parca paciência permitiu, respondi que devia estar havendo algum engano, pois há tempos que a linha estava no meu nome. “Sinto muito, o senhor (por que eles chamam todo mundo de senhor?) terá que solicitar uma troca de titularização.” Tento argumentar, mas a mulher estava decida a me ignorar de todas as maneiras possíveis. Ligo para solicitar a tal troca, mas a querida pessoa do outro lado da linha me informa que o procedimento só pode ser realizado numa loja da operadora. “Pelo amor de Deus, eu só quero, SÓ, comprar um celular!” Não quero furtar um celular. Não quero estragar um celular. Não quero sequer vender um celular. Só preciso comprar. Simples. Eu dou o dinheiro, me dão o aparelho.

Após engrossar um pouco a voz e a entonação, a moça parece me notar. Até fala comigo. “Ah, perdão senhor. Houve um engano, digitei um dado errado aqui no sistema.” Não me diga. A partir daí, em menos de 15 minutos consegui, finalmente, fazer alguém trabalhar naquela loja. Nem tive que implorar para que me entregassem o telefone. Espetacular! Depois dessa epopéia, senti-me como um Odisseu que houvesse chegado a Ítaca. Sem dúvidas (e perdão pelo chavão), a Vivo me matou no cansaço.