Algumas coisas são inevitáveis. Comer brigadeiro, se sujar em dia de chuva, decepcionar-se com alguém, repetir palavras num texto e, dentre outros mil exemplos, ser assaltado! Até ontem, eu também achava que este item não entrava na lista.
Feriado em Porto Alegre. Ninguém na rua. Mal passam carros, aliás. Saio de casa com um celular, mp3 e 30 reais no bolso. Ao atravessar a rua, um cara me chama, pergunta as horas. “Normal”, pensei, afinal estava com o relógio à vista. “São vinte pras três”, respondo com um ar de quem já está acostumado a receber esse tipo de pergunta. Menos de três passos depois ele fala: “Cara, eu to armado. Não te mexe, não tenta correr.” Me virei, meio que sem entender. Olhei bem pra ele. Devia ter no máximo 25 anos, mais alto e mais forte do que eu. Bem vestido, calça jeans e mochila nas costas. Uma mão fazia volume no bolso do casaco. Óbvio que não devia estar armado. Mas eu só poderia correr. Não quis arriscar levar um tiro nas costas.
Aquele momento durou uma eternidade. Ninguém passava por mim. A Capital parecia estar deserta, inabitada. Fui conduzido para um local ainda mais inóspito. Lá, realizei a humilhante tarefa de entregar ao meu algoz o celular e os míseros 30 reais. Nesse exato momento, quando fazia o movimento de dar-lhe o dinheiro, uma senhora passou por nós. Trajando preto e com a bolsa à tiracolo, a velhinha olhou, assustou-se e continuou andando como se nada estivesse acontecendo ao seu redor.
Ele ainda queria saber onde eu morava. Apontei qualquer direção e, após ser ameaçado (novamente) de ter a casa pilhada e o rosto marcado – caso eu chamasse a polícia – ele pediu os fones. E foi burro, ainda por cima. O mp3 estava num bolso. O celular, em outro. Entreguei somente os fones, resolvi me fazer de louco e deixar o mp3 no bolso. O babaca nem protestou. Quero ver como ele vai fazer pra encaixar eles no telefone!
Estava novamente sozinho. Não sabia se voltava pra casa, pois estava com medo de ser seguido. Poderia ficar, mas tudo o que eu queria era a segurança das paredes do meu quarto. Pelo menos, ainda tinha a chave. Depois de olhar para todos os lados possíveis, cheguei em casa. Não fui à polícia. Não quero ver o meliante sair da cadeia pior do que entrou. Com mais doses de ódio injetadas em suas veias e com os macetes que só se aprende naquelas escolas do crime.
A camiseta branca com o mapa do Brasil formado pelas palavras “ética”, “honestidade” e “paz” estampadas no meu peito estava vermelha. Manchada de sangue. Não o meu, mas o de milhões de pessoas que, diariamente, são vítimas da violência crônica deste e de muitos outros países. Em tempos de “Tropa de Elite”, é válida uma profunda reflexão sobre a eficácia da repressão policial, a função do poder público em relação à criminalidade e, principalmente, sobre o papel da própria sociedade em todo esse processo. Pode ser apenas impressão, mas eu, particularmente, me senti culpado e um pouco responsável por tudo isso. Inclusive, pelo meu próprio assalto.
Feriado em Porto Alegre. Ninguém na rua. Mal passam carros, aliás. Saio de casa com um celular, mp3 e 30 reais no bolso. Ao atravessar a rua, um cara me chama, pergunta as horas. “Normal”, pensei, afinal estava com o relógio à vista. “São vinte pras três”, respondo com um ar de quem já está acostumado a receber esse tipo de pergunta. Menos de três passos depois ele fala: “Cara, eu to armado. Não te mexe, não tenta correr.” Me virei, meio que sem entender. Olhei bem pra ele. Devia ter no máximo 25 anos, mais alto e mais forte do que eu. Bem vestido, calça jeans e mochila nas costas. Uma mão fazia volume no bolso do casaco. Óbvio que não devia estar armado. Mas eu só poderia correr. Não quis arriscar levar um tiro nas costas.
Aquele momento durou uma eternidade. Ninguém passava por mim. A Capital parecia estar deserta, inabitada. Fui conduzido para um local ainda mais inóspito. Lá, realizei a humilhante tarefa de entregar ao meu algoz o celular e os míseros 30 reais. Nesse exato momento, quando fazia o movimento de dar-lhe o dinheiro, uma senhora passou por nós. Trajando preto e com a bolsa à tiracolo, a velhinha olhou, assustou-se e continuou andando como se nada estivesse acontecendo ao seu redor.
Ele ainda queria saber onde eu morava. Apontei qualquer direção e, após ser ameaçado (novamente) de ter a casa pilhada e o rosto marcado – caso eu chamasse a polícia – ele pediu os fones. E foi burro, ainda por cima. O mp3 estava num bolso. O celular, em outro. Entreguei somente os fones, resolvi me fazer de louco e deixar o mp3 no bolso. O babaca nem protestou. Quero ver como ele vai fazer pra encaixar eles no telefone!
Estava novamente sozinho. Não sabia se voltava pra casa, pois estava com medo de ser seguido. Poderia ficar, mas tudo o que eu queria era a segurança das paredes do meu quarto. Pelo menos, ainda tinha a chave. Depois de olhar para todos os lados possíveis, cheguei em casa. Não fui à polícia. Não quero ver o meliante sair da cadeia pior do que entrou. Com mais doses de ódio injetadas em suas veias e com os macetes que só se aprende naquelas escolas do crime.
A camiseta branca com o mapa do Brasil formado pelas palavras “ética”, “honestidade” e “paz” estampadas no meu peito estava vermelha. Manchada de sangue. Não o meu, mas o de milhões de pessoas que, diariamente, são vítimas da violência crônica deste e de muitos outros países. Em tempos de “Tropa de Elite”, é válida uma profunda reflexão sobre a eficácia da repressão policial, a função do poder público em relação à criminalidade e, principalmente, sobre o papel da própria sociedade em todo esse processo. Pode ser apenas impressão, mas eu, particularmente, me senti culpado e um pouco responsável por tudo isso. Inclusive, pelo meu próprio assalto.
