domingo, 25 de outubro de 2009
O fazedor de chaveiros
Mas o resto da minha família adora. Passear por passear. Olhar as vitrines. Nada pode ser mais torturante, mais seviciador, mais masoquista do que olhar as vitrines. Mas bem, esse início é apenas para ambientar que, em uma tarde preguiçosa num estimado shopping center, enquanto esperava duas mulheres desbravarem as maravilhas da Renner, eu conheci ele, o senhor que fazia chaveiros. Fazia, não. Faz.
Me deliciando com o final de um livro delirante e psicologicamente enlouquecedor, eis que se aprochega ele ao meu lado, em um dos limpos bancos de madeira do local. Abre uma maleta preta, quadrada, e dela retira molhos e molhos de chaveiros, todos feitos de arame e com o mesmo formato oval. Depois, puxa um pedaço de papel, olha para os lados e enfim me pergunta. "Tem uma caneta?". "Claro", respondi, alcançando a suas mãos envelhecidas o objeto desejado. Volto ao alucinante livro, ao final da trama, ao orgasmo mental de conhecer o encaminhamento das personagens e àquela sensação de putaquepariu, que merda que acabou.
"Tu estuda?", pergunta, sem parecer incomodado em me incomodar. Ao que respondo com uma afirmativa seca, indicando que nada me interessa mais do que descobrir se enfim Ródion Románovitch iria se entregar, se Pulkéria Alieksándrovna iria descobrir o horrível segredo do filho e se Svidrigáilov continuaria bolinando uma miserável camponesa de 16 anos - tudo isso na Rússia czarista do século XIX.
"E qual é o teu nome?". "Samir". "Hein? Samil?". "Não senhor, Samir, com R de rato no final.". Imediatamente após descobrir meu nome, puxou da maleta um fio de arame e dois alicates. De uma maneira inexplicável para um senhor de 101 anos (idade que me assegurara ter), comecou a tecer no arame as letras S A M... E assim prosseguiu, com uma precisão cirúrgica. Só nesse momento é que fechei o livro e voltei para a Porto Alegre do século XXI. E notei o quão elegante era ele. Calça social preta e blazer bege, com gravata azul escura e camisa azul clara. Ok, combinar cores talvez não seja a sua especialidade, mas o fato de ter 101 anos, cabelos lisos brancos brotando aos tufos e coordenação motora de um pivete que foge da mãe ao fazer coisa errada, me fez não querer ver outra coisa.
Os que passavam eram capturados para a dantesca cena. Os vendedores das lojas ao redor cochichavam e apontavam. Uma mulher parou no banco ao lado para assistir. Em menos de dez minutos estava pronto. De um fio de arame feio e abstrato, seu Francisco Casela extraiu sentido e fez arte. Os dedos entortados pelo ofício e a mão de veias roxas pulsantes se mostraram mais capazes do que meu ignorante preconceito poderia crer. Imediatamente, me estendeu o chaveiro, complementando: "Toma, fiz pra ti. Tu merece, estava aí estudando e foi gentil comigo". Embasbacado, não consegui esboçar uma reação direta. Quando fez menção de sair, me levantei e lhe agradeci tao efusivamente quanto a peculiaridade da situação permitia. E foi assim que conheci o artesão de 101 anos que, munido de alicates, transforma arame em felicidade.
quinta-feira, 18 de junho de 2009
A cultura da inércia
Nós, jornalistas e estudantes, enquanto categoria, somos extremamente desmobilizados. Nos apegamos aos fatos, aos acontecimentos do bairro e do planeta. Opinamos sobre qualquer assunto que dominamos minimamente. Imergimos com intensidade nas histórias que escrevemos. O mesmo não ocorre com as próprias causas.
A consequência natural é o sucateamento das nossas representações. Sem associados, os sindicatos não têm como manter uma estrutura satisfatória, um aparelhamento capaz de cobrir as necessidades mínimas da categoria. Sem condições financeiras, não podem, por exemplo, sequer lotar caravanas para realizar protestos em Brasília – como teria sido extremamente oportuno, no caso da votação do STF.
Comparo a inércia dos jornalistas e dos acadêmicos da área com a organização da classe médica, por exemplo, que é ferrenhamente mobilizada. Há pouco tempo o governo esboçou uma tentativa de mudar a nomenclatura da titulação médica. Um fato aparentemente simples e que, não fosse a articulação da categoria, teria passado em branco. Bastou isso para que mais de dois mil estudantes de medicina lotassem as ruas de Porto Alegre no ano passado para exigir que, em seus diplomas, constasse o título de “Médico” e não de “Bacharel em Medicina”, como pretendia o Ministério da Educação. A revolta dos jalecos, associada a uma série de medidas, inclusive legais, fez com que o MEC recuasse e garantiu que, até hoje, os universitários tenham o título de médico estampado em seus canudos.
A maior seqüela da nossa desmobilização é a facilidade com que nos arrancam direitos e garantias. Outras categorias talvez tivessem feito uma grande articulação e mobilização nas suas bases e, com isso, conseguido reverter a imposição da não-obrigatoriedade de um diploma superior. Será que os jornalistas e estudantes não possuem essa consciência coletiva? Nossa causa é menor? Somos mais alienados? São perguntas perturbadoras e que a realidade se encarregará de responder.
domingo, 9 de novembro de 2008
A segunda vez dói menos
quarta-feira, 5 de novembro de 2008
Tietagem e alfinetadas na palestra. Ou de quando descobri que posso ser um criminoso.
O que mais me marcou na palestra do Caco Barcellos foi que o brasileiro, contrariando minhas teorias, não perdeu a capacidade de protestar. De ser tenaz, arguto, provocador e alfinetante. Tudo bem que o público era composto de estudantes universitários, dos quais grande parte faz jornalismo. Mas, ainda assim, a pergunta afastou a apatia e deu um ar de rebuliço ao ambiente.
segunda-feira, 20 de outubro de 2008
O bailão visto por dentro
A fachada é simples e informal, porém, informativa. A pintura gasta alerta, em tons de vermelho e azul, que o imenso casarão branco localizado na Avenida João Pessoa abriga a Cervejaria Rodeio e terá, na quinta-feira, 9/10, show com a banda Musical JM. “O pessoal da JM cobra R$ 15 mil por duas horas de apresentação”, dimensiona Moisés de Assis, proprietário do clube. Com ares de obviedade típicos de quem já domina o assunto, esclarece: “Bandas grandes só tocam por duas horas”.
Com 53 anos, jornalista formado e apresentador de um programa matutino na Rádio Farroupilha, Assis acumula o trabalho de radialista com a gerência de uma “casa popular”, como ele mesmo prefere definir seu empreendimento. “Bailão é um termo muito pejorativo”, justifica. Sentado em uma saleta discreta dentro do grande galpão que é a Cervejaria Rodeio, Moisés ostenta algumas prerrogativas de dono. Um sofazinho amarelo de dois lugares, uma televisão de 12 polegadas e uma mesa de escritório com porta-canetas e papéis espalhados são os pequenos luxos que o grande salão cimentado esconde. O pequeno Bunker de Moisés. Onde a vasta gama musical que ecoa através das dez caixas de som do ambiente não chega com tanta intensidade.
A casa existe há 28 anos e está há oito sob as rédeas do radialista. Já se chamou Ático, Status Clube, Capitão Sete e Clube Rodeio. A mudança para o nome atual é “uma tática de venda para atingir um público mais jovem”, esclarece Assis. Por público, entenda-se pessoas de todas as idades. Moisés prefere não restringir e estima uma margem de freqüentadores entre 16 e 60 anos. A mesma distância não prevalece quando dimensiona a esfera social de quem procura diversão no chão batido da cervejaria. ““Quem vem aqui é a classe trabalhadora, é o motorista de ônibus, a diarista, a aposentada, a garçonete, o eletricista”, conclui.
“O gosto popular é muito acentuado”
“Se apertar ela dá... dá, dá, dá. Se insistir ela dá... dá, dá, dá. Com jeitinho ela dá... dá, dá, dá.” A letra libidinosa e o ritmo dançante embalam os quadris de Rose pelo salão retangular rodeado por 14 camarotes e pequenas mesas redondas. O desconhecido que a acompanha é apenas um acessório para seu divertimento. “Venho aqui só para dançar”, confessa a pensionista, admitindo que “quando os homens tentam alguma coisa, eu dou o fora”. Mãe de duas adolescentes, a moradora do bairro Cristal reúne os amigos e se desloca religiosamente para o santuário da folia barata. “Aqui é que nem Igreja, tem que vir todo domingo”, confirma Rose, enquanto olha para a pista a procura do próximo objeto dançante.
“Você nunca me amou, só me quer naquela hora”, esbravejam as dez caixas de som negras camufladas na penumbra do ambiente. Em seguida, outra voz entoa: “Ela não me ama. Ela só quer coisar”. O ritmo e as letras parecem não incomodar Adam Santos. Aos 19 anos, o jovem eletricista não se abala com a sonoplastia: “Meus pais escutam esse tipo de música, então já estou acostumado”. Porém, é visível a percepção de que o morador de Estrela não faz parte do folclore local. Calçando tênis All Star preto e vestindo calça jeans e camiseta justas ao corpo, o rapaz desconversa. “Gosto mesmo é de rock!”. A franja corta o rosto na diagonal e denuncia suas preferências musicais destoantes. “Escuto geralmente Fresno, NX Zero e Simple Plan”, revela. A opção pela Cervejaria Rodeio para passar a noite de domingo não se fundamenta nas melodias: “Estou em Porto Alegre a trabalho e um amigo me convidou para vir pra cá”, ressalva, concluindo que espera “conhecer gente nova”.
Indiferente ou apaixonado, o público sente na música o perfil da casa. Detentor da programação e senhor absoluto das caixas de som, Moisés de Assis reconhece a importância da sonoridade para a movimentação do estabelecimento. “Eu sou um arquivo musical, quem dita as músicas aqui sou eu”, impõe o corpulento gerente. Mas acrescenta: “A música é péssima, é só dor de cotovelo”. Apesar de gerenciar uma casa popular, Moisés não compartilha as mesmas predileções dos seus clientes. “Gosto de Queen, Beatles, Lulu Santos”, contrapõe. Para ele, “o pessoal que consome o tipo de música do bailão é mais alienado”. O proprietário, que fatura em média R$ 150 mil por mês com a Cervejaria Rodeio, resume o apetite sonoro do público: “O gosto popular é muito acentuado”.
“A inspiração vem de nós mesmos”
O imponente palco da Cervejaria Rodeio é destinado às mais diversas bandas do segmento popular. Encravado no fundo do salão, de frente para a vasta pista de dança e de costas para as três cabines do banheiro masculino, o local transforma-se no foco da atenção do público quando o grupo Musical JM desponta atrás das cortinas de TNT cinza. Os sete integrantes do conjunto hipnotizam a platéia, que delira com a voz do vocalista Clayton Borges, de 38 anos.
Com mais de 16 CDs gravados, a banda realiza apresentações em vários estados do país e até internacionalmente. “Acabamos de voltar do Paraguai”, acentua o baterista Denis Casper. As fãs se espremem na frente do palco e esticam os braços na tentativa de acariciar seus ídolos. Juliana Ferraz obtém sucesso. A jovem de 19 anos ignora a cantoria e agarra Clayton pelo pescoço, levando-o para a lateral do palco. Não satisfeita, segundos depois investe contra o outro vocalista, para então descer e se juntar à massa embevecida pelas melodias do grupo. O gaiteiro Adilson Souza explica o segredo da composição das músicas de sucesso: “A inspiração vem de nós mesmos”.
Mas para tocar no palco da Cervejaria Rodeio é preciso, antes, passar pelo crivo de Josi Nascimento. A empresária das bandas trabalha há três anos no clube e se orgulha da carreira que construiu. “Hoje eu tenho mais de 60 grupos na minha agenda”, gaba-se Josi. E a experiência já lhe ensinou os macetes da profissão. “San Marino é a banda que mais lota, tanto é que eu consigo apenas dois ou três shows deles por ano”, explica. O cartaz na parede anuncia a próxima atração: “Banda Matizes - os bad boys do tchê music.
“É barato sem ser depreciativo”
Quem paga os cinco reais cobrados para entrar na Cervejaria Rodeio não desconfia que as cifras necessárias para a manutenção do estabelecimento possam chegar a R$ 50 mil por mês. “Só a conta de luz é em torno de R$ 3 mil”, salienta o proprietário Moisés de Assis. Com água, o gasto cai para R$ 2 mil. Mas a maior despesa vem do aluguel do salão, que ceifa dezoito mil reais do lucro mensal de R$ 150 mil que a população proporciona a Moisés.
A casa emprega 28 trabalhadores fixos, com salário em torno de R$ 960,00. Moisés ressalta que, informalmente, o local gera emprego para garagens, para atendentes do posto de gasolina vizinho ao prédio e para seguranças na rua. “É só fechar a casa e a região está morta”, explica o empresário. A família também participa dos negócios. “Tenho três irmãs que trabalham comigo”, afirma.
Com capacidade para 1.500 pessoas, a média de consumo de bebida do clube é de 180 caixas de cerveja por noite, relativo a uma garrafa por pessoa. A quantidade cai no inverno, quando o movimento despenca. Moisés explica porque a estação quente atiça os freqüentadores: “O público da Cervejaria Rodeio não viaja no verão. São como cobras, é só esquentar e saem para a rua”. Para tornar suportável o calor, o salão conta com 17 ventiladores de teto estrategicamente posicionados nos arredores da pista de dança. Como um criador que valoriza sua obra, Moisés sintetiza o resultado da equação gastos elevados x custos baixos: “O bailão é barato sem ser depreciativo”.
terça-feira, 14 de outubro de 2008
Mas bah, tchê
Primeiro: a ex-companheira do ex-governador Leonel Brizola abocanha o Estado e envergonha a História com o pedido – já acatado pela (in)justiça brasileira – de condição de anistiado para o dito cujo. Calma, brizolistas de plantão! O ícone pedetista foi, inegavelmente, exilado pelo regime militar de 1964 e teve os direitos políticos cassados. Até aí, óquei. O que a viúva sacana não deveria ter feito é intercedido pelo falecido em uma questão que nem o próprio, quando vivo, concordava. Brizola, em atitude de nobreza ou marketing político, se recusava a usufruir das benesses ($$$) da Lei da Anistia. Ao que parece, Marília Guilhermina Martins Pinheiro discorda. Não bastasse a já pomposa pensão de R$ 13,7 mil que ganha do governo do Rio Grande do Sul e os R$ 6,3 mil que o governo do Rio de Janeiro lhe paga mensalmente, Marília, graças às perseguições políticas sofridas por Brizola, vai ter revisada – vulgo “aumentada” - a pensão (sim, mais uma) de R$ 2 mil que a Câmara de Deputados gentilmente lhe concede. Detalhe: as duas primeiras mesadas são apenas por ser mulher de ex-governador. Que governou dois estados, ainda! Sortuda ela, não? Inclusive estou pensando em galantear a governadora Yeda Cruzes para, findado o mandato, ganhar uma bagatela mensal às custas do dinheiro público.
Segundo fato tensionador de neurônios
Apartentemente, o Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG) não tem mais o que fazer. Cansados do marasmo de apresentações em rodeios, invernadas, passinho-pra-lá-e-passinho-pra-cá, a gauderiada tradicionalista resolveu entrar em guerra com os gays. Não com todos os gays – pelo menos não abertamente -, mas com aqueles que usam bombacha e dançam nos CTGs. Os guardiões da cultura gaúcha se sentem incomodados com a presença de gestos suaves e passos leves nos corpos dos peões, chegando a afirmar, inclusive, que eles competem em feminilidade com as prendas. Quanto moralismo! Quanto preconceito! Quanto alarde para pouca merda! Sugiro, inclusive, que os peões homossexuais se unam e formem o GTG. Gays Tradicionalistas Gaúchos. Mas isso não se concretizaria. Grande parcela desses guascas, embora de gestos e trejeitos afeminados, nunca iria expor suas bombachas coloridas em praça pública. Além do mais, os GTGs só incentivariam o apharteid sexual, embora preservassem a liberdade individual que os tradicionalistas condenam. Na verdade isso tudo é uma grande baboseira do pessoal do MTG. Baboseira não. Frescura.
*Para ler o artigo que critica a presença homossexual nos CTGs, clique aqui
> Algumas pérolas do caudilho ressentido
p.s: favor desconsiderar os erros de português
"O avanço do homossexualismo no mundo atinge todas as camadas sociais e todas as culturas, é um avanço assustador!"
"Homem acasala com mulher e mulher acasala com homem! Da mesma maneira que cavalo cobre égua e não cavalo, e égua não cobre égua. Égua é coberta pelo cavalo! Isto sim, é natural!"
"Vejo em muitas invernadas gestos de peões que, na verdade disputam com a prenda doçura e meiguice, a tal ponto que, a grosso modo, vê-se duas prendas dançando. Uma travestida de homem!"
"Espera-se que instrutores e patrões fiquem atentos para auxiliarem estes peões, para que os gestos não fiquem femininos demais e com isto prejudiquem o desenvolvimento das nossa Danças Tradicionais. Afinal, nas danças gaúchas, feminina só as prendas!"
sábado, 4 de outubro de 2008
Politiqueta
Em Porto Alegre não é diferente. Os candidatos tentam passar credibilidade através da roupa que usam. Luciana Genro, do PSOL, resolveu tirar a imagem de revolucionária feia e rabugenta para contabilizar mais votos. Não funcionou. Pelo menos não para ir ao segundo turno. Houve um impacto inicial, mas logo depois os cachos e o tom da candidata voltaram a encrespar.
Maria do Rosário, do PT, fez diferente. Continuou com as mesmas blusas e blazers em tons vermelho e rosa, mas tirou o sorriso do rosto. A petista vivia sorrindo. Falava sorrindo, criticava sorrindo. Soube até de um caso em que ela roubou a vaga de uma pessoa no estacionamento de um teatro e saiu, adivinhem, sorrindo! É uma inclinação quase monalística para a arte de sorrir.. Nos últimos dias, a candidata resolveu dar uma de séria para variar e deixar os sorrisos para o caso de ir ao segundo turno. Talvez seja a preocupação com a adversária Manuela D’Ávila.
Aliás, não tem como falar de estética das eleições sem falar da candidata do PC do B. Manuela, que já foi obesa na adolescência, traiu Lênin e Marx e adotou o roxo como cor oficial da campanha. A candidata encheu o armário de blusas roxas e esvaziou a campanha de qualquer coerência ideológica que o PC do B possa ainda ter. Mas todo mundo que já pegou num lápis de cor de duas pontas sabe: do lado do roxo, vem sempre o rosa. E a pretensa comunista ainda vai ter que dar muitas mãos de tinta roxa para apagar os tons rosados da sua coligação.
Já Vera Guasso, do PSTU, encarna o vermelho e estampa a foice e o martelo no peito. Por convicção, mantém o estereótipo de que mulher, para ser revolucionária, tem que ser malvestida e despreocupada de coisas fúteis como maquiagem.
E os homens? Esses não merecem comentário. A não ser pelo ministro Carlos Minc, todos se vestem igual. O estilo terno-e-gravata predomina no palanque masculino e banaliza qualquer análise sobre moda na disputa eleitoral. Até o Mano Changes teve que entrar nessa. As mulheres é que enfeitam a corrida pela prefeitura de Porto Alegre e transformam penteados e tecidos em poderosas armas para seduzir o eleitor com suas propostas.
segunda-feira, 23 de junho de 2008
Reducionismos
Eu gostaria de perguntar aos propagadores desse infeliz aforismo: Quando os tais valores foram respeitados? Aliás, a noção de valor, por si só, é arbitrária e extremamente subjetiva. Mas, enfim, admitindo-se que exista um conjunto de doutrinas morais e éticas que supostamente regem uma sociedade, quando eles foram respeitados em escala infinitamente maior? No Brasil-colônia, quando houve um genocídio das culturas nativas, a total exploração das riquezas nacionais e os governadores-gerais cometiam toda sorte de extravagâncias? No Brasil imperial, com a discriminação aos negros recém “libertados” por uma lei que sequer lhes assegurava um mínimo de dignidade? Nas primeiras décadas do século XX, quando a intensa urbanização sofrida pelas metrópoles brasileiras, especialmente o Rio de Janeiro, enxotou os pobres para os morros e tentou transformar, pelo garrote, a Capital da República numa espécie de Paris tupiniquim? Nos anos 1950, época em que Juscelino desestimulou a indústria nacional, arregaçou o país às multinacionais e os brasileiros deram vivas aos enlatados norte-americanos? Não vou nem comentar o período 1960-1980. Décadas em que “lei” e “ordem” tinham significados muito mais obscuros e cruéis. Passamos, então, aos anos 1990. Me pergunto quais valores podem ser extraídos da privatização de uma nação, de homéricos índices inflacionários e de um governo tão podre que consegue se auto-reeleger.
Portando, queridos interlocutores da perda de valores, dêem uma olhadinha para trás antes de saírem por aí escrevendo, gritando, cuspindo que “hoje em dia, os valores não são mais respeitados”. Não vivemos tempos felizes, com certeza. Mas o que é a noção de felicidade, senão a busca não-palpável por uma perfeição que não podemos alcançar? Quem tem autoridade para dizer que o jovem de hoje é pior que o jovem de 40 anos atrás? Os que apregoam a deterioração dos costumes são, na verdade, mentes extremamente conservadoras sem perspectiva histórica. Fazem crer que vivemos em uma era devassa porque eles mesmos não têm coragem de olhar para o próprio umbigo e verem o quanto são responsáveis pela merda em que pisam.
sábado, 21 de junho de 2008
Desgovernadora Yeda na berlinda
quinta-feira, 5 de junho de 2008
A última noite
Apática. Num ostracismo quase nostálgico, a cerveja arranhava a garganta e irritava o estômago. Não que não fosse afeito aos prazeres do álcool. Pelo contrário. Mas aquela era a última noite e, longe de configurar uma festiva despedida, moldou-se em um turbilhão psico-emocional que a prodigiosa poção fermentada só faria catalisar.
Jeremias sabia. Seria a última noite, indiscutivelmente. Em suas conversas transcendentais com a Lua, já havia sido prevenido. Embora ultimamente desconsiderasse os conselhos e as opiniões da velha companheira, teve que baixar o olhar e refletir diante da imensidão das suas certezas de matriarca empedernida. Assim sendo, arrumou-se para tal com a crença cega das mentiras que, de tão repetidas, acabam por virar verdades.
As pessoas felizes o irritavam. Dançavam como se disso dependesse as suas vidas. Bebiam como se disso tirassem algum prazer. Sorriam como se assim comunicassem sem dizer. A pequenez das vidas ao redor parecia carimbar em sua pele o aval das últimas noites. Mecanicamente, qual carro que se afoga em gasolina mesmo sem gostar do cheiro e unha que bóia em esmalte mesmo sem sentir a cor, Jeremias enchia o copo de cerveja. Antes de tomar, já sucumbia ao gosto acre e à ânsia de vômito. Mas continuava entornando. No quarto copo obrigou-se a ir ao banheiro e encarar, mais que o fedor e o nojo, seu próprio reflexo no espelho. E como o irritava o ar sabichão e acusador que tinha seu reflexo! Preferia muito mais sua sombra, que era muda e contentava-se em encará-lo com a não-expressão típica das sombras. Um recato que os reflexos de espelhos de bar ainda desconhecem.
Acompanhado da sombra, que fazia um esforço nebuloso para seguí-lo por entre o rastro dos néons e dos jatos coloridos que lançavam fótons em riste, Jeremias pensava em quão privilegiado era, pois apenas ele sabia que aquela era a última noite. Apenas ele poderia prever que o nada viria depois. Que os laseres afiariam-se como facas e decepariam todos os sorrisos dançantes e que as lésbicas sairiam das paredes para engolir a pista com um apetite ferino. Que o chão xadrez ficaria tão movediço quanto areia e dragaria os pés saracoteantes aos domínios inertes daqueles que nunca dançam.
E, por saber, tudo lhe passou a olho nu sem as menores conseqüências. Os laseres sequer raspavam sua cabeça. As lésbicas o evitavam com uma expressão quase amedrontada e o chão sob seus pés era tão firme quanto a certeza de que a última noite da humanidade era seu primeiro dia de glória.
terça-feira, 3 de junho de 2008
Renascer
A via com nome de ditador nanico é o lar de um lar. Lá, entre prédios residenciais, comércio intenso e concentração extraordinária de mendigos, vive Arcanjo Raphael. A casa geriátrica batizada de divindade ostenta com certo orgulho as paredes-mar inauguradas há cinco anos. Um letreiro quadrado e alto formaliza as boas-vindas e informa os visitantes: “Casa de Repouso Arcanjo Rapahel”. As letras são gordas e verdes. O portão caído de ferro cinza não intimida e confere um ar ainda mais recolhido ao prediozinho de dois andares que parece esconder uma idade bem mais antiga que a de seus moradores.
Cerca de 19 funcionários zelam por 27 idosos. Técnicos de enfermagem, faxineiras, cozinheiras e médicos são os moirões que seguram a estrutura de paredes verdes. Cuidam de “donas” e de “seus” que passam o dia a contemplar. Contemplar é a atividade mais espetacular que se aprende num asilo. Contempla-se o passado, o presente e o vindouro. Contempla-se a própria essência do ser. A morte é uma ameaça a cada degrau e a vida entra sussurrante pelo vão das janelas, pelos raios de sol e, de uma maneira bem mais mecânica e pré-fabricada, pela televisão. As poltronas e os sofás estofados abundantes conhecem vidas inteiras. Os quartos, individuais ou coletivos, abrigam histórias que até mesmo as paredes verdes desconhecem. O pequeno pátio de piso frio representa o ápice da existência. Escoltado pelo portão cinza caído, ele configura a tradução mais literal que as palavras liberdade e vida podem significar para os 27 filhos de Arcanjo Raphael.
“Eu moro aqui há quatro anos”, revela Eny. Vítima de um distúrbio mental que a faz parecer meio abobalhada, Eny Terezinha Pereira da Rosa toma uma xícara de achocolatado e come um punhado de bolachinhas amanteigadas. Daquelas que só se encontra em casa de vó. No banquinho do pátio, ao seu lado, aproveitando o sol das 16h, estão dona Dica e dona Joana. Dica, ao contrário de Eny, transparece feições tristes e cansadas. A diabetes lhe tirou o doce da vida e a idade lhe emprestou o ar apático que seu meio-olhar transmite. “Come Dica, come uma bolachinha”, oferece Eny, indiferente à indiferença da amiga. Dona Joana é a mais comunicativa. Fala sobre tudo e sempre tem uma opinião. Como toda idosa de asilo, a vontade de contar é nela a principal arma contra a inércia. Dona Noeli, que conhece as paredes verdes há 10 anos, desde quando a casa ficava na rua Mariante, também conta. Mas conta números. “Quarenta e cinco, quarenta e seis, quarenta e sete...”, e assim continua. Talvez assim repasse os 99 anos de vida em sua memória. O leite que toma não vence a garganta e forma uma lagoa branca na boca até que algum funcionário mais atento a socorra com um pano.
“O meu quarto fica lá em cima”, aponta Eny toda orgulhosa para a janela de seu dormitório. Eny sempre traz no pescoço um colar de pedras negras e marrons. As unhas exibem o esmalte bege discreto e o rosto é a síntese absoluta de seus 74 anos. Cada ruga, cada sulco, cada mínimo traçado na pele denuncia a idade e a inocência de Eny. Os cabelos brancos e curtos formam ondas de pontas cinzas sob o rosto quase retangular. O nariz salta para frente com uma austeridade surpreendente, mas não exagerada. A boca esconde amarelos dentes grandes e espaçados. Mas o mais incrível é o olhar. A maioria dos homens e mulheres que vive no Arcanjo Raphael tem um olhar ensimesmado. Não triste, mas vago. Eny, não. Os olhinhos miúdos movimentam-se com tanta velocidade quanto sua fala. As frases atropelam-se e muitas vezes perdem o sentido. Entretanto, o olhar continua firme em sua rota horizontal, indo da esquerda à direita e freqüentemente repousando em uma das pontas. Quase nunca fita um objeto específico ou uma pessoa.
O quarto individual da dona dos olhos ziguezagueantes denota a simplicidade das necessidades e das vontades de uma vida aos 74 anos. Uma cama de solteiro, uma televisão antiga, uma minigeladeira, um roupeiro diminuto e uma cômoda. Uma, uma, uma. Tudo no singular. A sala do segundo andar, composta por um conjunto de três grandes sofás, é o antro de repouso de Noeli que, envolta em cobertores, continua em sua saga com os números. Dona Me, uma chinesa minúscula de 98 anos, esparrama-se pela poltrona amarela como gema de ovo e parece não notar o videoclipe da Shakira seminua que passa na TV antiga.
A rotina da casa é inabalável e Eny sabe disso. Pergunta freneticamente as horas a cada dez, cinco, dois minutos. “Às 18h eu tenho que jantar. Hoje vai ser sopa”, delicia-se. Boa parte das conversas com suas amigas se resume a novelas, aos afazeres diários da casa e a uma paixão geral. Tão geral que não escapa nem aos brasileiros asilados pelo Arcanjo Raphael. O futebol. “Aqui no segundo andar tem um monte de colorados”, brada Eny, com a certeza de, por isso, estar rodeada de boa gente. As senhoras comentam sobre as proezas do Inter e as baixas do Grêmio com a destreza de um moleque de 14 anos que joga uma pelada com seus amigos todo dia no campinho da esquina.
Muitos pensam que asilo é sinônimo de abandono. Equivocam-se. Nem sempre o ar gelado e a atmosfera nostálgica significam tristeza e saudosismo. Pelo contrário, podem atestar paz e serenidade. E ninguém mais gabaritada para ratificar essas afirmações do que Suzana Helena Morais da Silva, funcionária do Arcanjo Raphael há cinco anos. “Às vezes tu pensas que trabalhar aqui é só chegar, dar banho, limpar eles e deu. Mas não. Tu aprendes muita coisa da vida”, reitera. E não haveria lugar mais propício para o questionamento de Suzana: “Tu vês, tanta coisa que a gente deixa de fazer. Pra quê? Tanta coisa que a gente guarda. Pra quê?”. Os frutos de cinco anos de trabalho permitiram à funcionária ter a coragem de criticar as doutrinas da vida e encará-la como uma veterana que já conhece suas artimanhas.
Na ânsia de enganar a solidão, muitas velhinhas agarram-se a um objeto ou a uma lembrança específica. Noeli se distrai com os números, Dica parece entreter-se com moléculas de ar invisíveis que trespassam seus olhinhos apáticos. Eny encontrou em Cláudia Regina uma razão para existir. Segurando a boneca com a mão e esquerda, sentencia: “Esta é minha filha, Cláudia Regina. Ela vive comigo há dois anos”. No meio das conversas, dos lanches e de qualquer outra ocupação que Eny possa ter, do nada, como se obedecesse a uma ordem vertical do cérebro, ela coloca a boneca rente à testa e balbucia um “né, minha filha?”, ou então algo como “ohh Cláudia Regina”, com aquela voz chorosa de adulto ao falar com cães e bebês. E inimigo de Cláudia Regina é inimigo mortal de Eny. Ela desdenha quem não gosta de bonecas e não suporta que façam pouco caso da filha. O amor de mãe fictícia é real e comprova-se pelo travesseirinho esponjoso que ocupa um lugar privilegiado ao lado do seu: ”Ela dorme comigo toda noite”.
Dentre todas as certezas que se pode ter sobre um asilo, nenhuma é maior do que a de que, uma vez velho, volta-se a ser criança. Assim como em qualquer outra casa de repousou, na Arcanjo Raphael os velhinhos precisam ser alimentados, lavados, tapados, medicados e toda uma série de ados que ficam perdidos entre o final da infância e o começo da velhice. Talvez seja uma maneira de enganar ou selar de vez o ciclo da vida. Volta-se ao começo. É quase como um mecanismo de defesa para enganar a idade ou a morte. É um renascimento que vai além do enxugamento do corpo e da mirradeza do esqueleto. É algo incompreensível até que se chegue nele. Só os 27 filhos do Arcanjo Raphael sabem, e como sabem, que os segredos da idade e do renascimento não podem ser alcançados por aqueles do lado de fora das paredes verdes.
quarta-feira, 14 de maio de 2008
Esperança a estibordo
“Sim, senhor, senhor!”. Posso imaginar o ex-marinheiro, ex-guerrilheiro, ex-torturado, ex-exilado, ex-não-anistidado, ex-militante-treinado-em-Cuba, ex-utópico Avelino Capitani bradando, lá pelos idos de 1960, num quartel carioca da Marinha. Mas, ao abrir a portinhola enferrujada e rangenta do bloco de casas porto-alegrense onde mora, não diz nada. A roupa denuncia o saudosismo (ou seria o hábito?) da farda cerimoniosa. A calça é branca e entra em total harmonia com os sapatos. Não fossem tecidos velhos e de malha xexelenta, o conjunto poderia ser confundido com a suntuosa veste de um marinheiro. Faltava-lhe, nos ombros arqueados, as estrelas e umas três daquelas flechas diagonais que enfeitam de pujança e brio o ombro ereto de um militar.
Mas militar já não é. Não o tem sido desde 1964, quando a caserna cravou suas baionetas em Brasília e vestiu a toga rasgada da justiça e o terno negro da política. Capitani, àquela época, era dirigente da Associação dos Marinheiros e foi um dos líderes da fracassada revolta que os companheiros de farda tentaram fazer contra o golpe.
Sentado na poltrona laranja, fuma o segundo Carlton vermelho e assopra rodelas cinzas de fumaça. Como aquelas que os marinheiros fazem nos desenhos. As de Capitani saem tortas e voláteis. Sobem até a altura dos seus cabelos e parecem se misturar a eles, reforçando a cor amarelo-desbotado e cinza-sujo que os caracterizam.
“Eram dez mil soldados a postos para atacar três mil marinheiros aquartelados”, puxa Avelino pela memória, enquanto diverte-se com as rodelinhas cancerígenas. E como é que ele foi parar lá, no meio daquela muvuca toda? O lajeadense só queria uma coisa. Entrou na Marinha por um motivo apenas: o estudo. Como era pobre, viu na armada das águas uma oportunidade para continuar aprendendo.
“O lápis da gente era na ponta da enxada”, graceja o marujo, referindo-se à infância interiorana, quando cursou até não mais que a 4ª série. A decisão de se alistar não foi nobre nem patriótica. “Um dia eu estava na praça XV comendo um picolé e sentou um marinheiro do meu lado e começamos a conversar”. Foi assim, meio que por acaso, que Capitani almejou ser almirante. Mal sabia ele, na ingenuidade dos 20 anos, ao se candidatar à Marinha, que acabaria na então Guanabara amotinado com um bando de esquerdistas. Avelino não sabia de muitas coisas. Na efervescência da metrópole conheceu Marx, Marcuse, Debray e a realidade brasileira do início dos anos 1960.
Em 1966 resolveu passear pela Serra do Caparaó, no Espírito Santo, e, junto com mais uns vinte homens, formou o primeiro foco de resistência armada à ditadura tupiniquim. “Analisando hoje, foi uma loucura. Mas, na época, a gente não pensava assim. Nós éramos soldados latino-americanos comandados, em instância internacional, por Che Guevara”. A história mostra, contudo, que nem o sangue latino, nem a presença de Che na vizinhança, nem o apoio de Brizola, nem o treinamento em Cuba foram suficientes para impedir que vinte guerrilheiros tornados em frangalhos sucumbissem ao poderio do exército em 1967.
No Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR), Avelino virou Charles. Com uma pistola 45mm em mãos, ele ganhou fama. Não foi só a música de Jorge Ben que o consagrou. “Na época, me chamavam de ‘gatilho de ouro’”, confessa, não sem um certo regozijo no olhar encovado de olhinhos negros e fundos. Após o fracasso das férias em Caparaó, Capitani refugiou-se no então pacífico Uruguai, onde pretendia rearticular-se com Brizola e seus aliados. De lá, passou por Bolívia, Argentina e Chile. Voltou para um Brasil pós-68 e ajudou a guerrilha urbana nos assaltos a bancos.
Hoje, o ex-muitas-coisas não tem pudor em falar sobre o passado. Alguns guerrilheiros enlouqueceram ou trancafiaram-se no mais inerte silêncio. Capitani não. Vítima da crueza de um regime que torturava e matava, ele fala sobre o assunto com relativa tranqüilidade. “Hoje, eu tomaria um cafezinho com o meu torturador”, confessa Avelino. A frase não soou tão sádica quanto, de fato, parece. Acontece que Charles superou, além da dor física, a outra dor. Aquela que quebra a alma. O corpo, visivelmente, encontrou o caminho da regeneração e, ao que parece, apesar do cigarro, Capitaini esbanja saúde com seus um metro e oitenta e tantos distribuídos num esqueleto estável, ainda que com todas as mazelas da idade e do passado.
Apesar da aparente calmaria, Avelino não esconde algumas seqüelas. Marcas tanto físicas – que se denunciam na aspereza da pele e na profundidade chorosa do olhar – quanto abstratas – navegando no limbo dos pensamentos atormentados e dos sonhos perdidos. “A tortura é o que há de mais desumano no ser humano”, confidencia, ao descrever os mais atrozes meios de se machucar uma pessoa. Num fôlego de confiança e otimismo em meio aos relatos cavernosos, admite: “Ainda tenho pesadelos, mas são menos freqüentes desde que eu consegui ‘perdoar’!”. As mãos gesticulantes formam aspas no ar e espalham ainda mais a fumaça do sétimo Carlton vermelho pelo ambiente diminuto da sala. Perdoar é um conceito meio torpe quando aplicado em tão extravagante caso. Só posso concluir que, salvo a hipótese de Avelino ser um ente divino e livre de imperfeições, ele se expressou mal. E, dimensionando melhor sua assertiva, complementa: “Eu não quero morrer abraçado ao meu torturador”.
Sem abraços, sem glória e sem revolução. É assim que vive Charles quarenta e quatro anos depois do golpe que alterou inexoravelmente o rumo de suas naus. Jorge Ben tem razão ao cantar que o Anjo 45 é o “Robin Hood dos morros”. Capitani, que nunca foi Almirante de fragata, nunca pendurou um diploma de faculdade na parede bege da sua sala e não ostenta estrelas nem honras militares, agora trabalha em algumas ONGs e faz uns bicos quando dá. Contemporâneo ao beatle John Lennon, Avelino estende as velas , hasteia a bandeira irrecolhível da esperança, mira o horizonte a estibordo e brada, provavelmente, uma das poucas certezas que tem na vida: “Meu sonho ainda não acabou”. A voz de Charles ainda flutua sobre a laringe gasta do velho marujo.
segunda-feira, 5 de maio de 2008
Alice no país do futebol
Formada em 2005 pela PUCRS, Alice nunca pensou que fosse trabalhar no meio esportivo. “Eu saí daqui (da faculdade) com a firme idéia de fazer jornalismo cultural”, confessa, e revela que sua monografia foi sobre a revista Aplauso. Também jamais lhe ocorreu atuar em outra mídia que não fosse a revista: “Na faculdade, o meu foco nunca foi a televisão”. Através de uma amiga e de um “conjunto de sorte, talento e dedicação”, Alice conseguiu uma vaga no cobiçado espaço da RBSTV.
Sem familiaridade nenhuma com campos, bolas, pistas e maratonas, a recém-formada de 23 anos começou acompanhando as equipes de reportagem no RBS Esportes, programa que busca dar maior visibilidade ao desporto olímpico gaúcho. Apesar de apenas dois anos de experiência na área, Alice já pode pendurar uma medalha de ouro em seu currículo. Em 2007, ainda meio-amadora, meio-veterana; foi ao Rio de Janeiro cobrir os jogos Pan-Americanos. “Uma coisa que me impressionou muito num grande evento foi a burocracia”, admite Alice, que, visivelmente, não faz o tipo cerimoniosa. Vestida com uma calça jeans azul justa, é possível notar a dança rítmica das unhas brancas acompanhando a blusa de gola alta da mesma cor enquanto gesticula.
Questionada sobre o espaço nada democrático dado a outros esportes na cobertura jornalística, Alice é taxativa: “O futebol envolve muito dinheiro e muita paixão”. E, com um ar mais confiante, ressalva: “Mas a gente está conseguindo abrir espaço”. Como lida rotineiramente com casos de superação, esforço e realização, a repórter-Alice não consegue se distanciar da pessoa-Alice. “Me envolvo absolutamente”, revela a jornalista. “Não tem como não se envolver, tu acabas criando uma relação de dia-a-dia com esses caras”, diz, referindo-se aos exemplos de superação de atletas gaúchos, como o caso do esgrimista João Souza, que já tem vaga garantida em Pequim.
Porto-alegrense natural de Pelotas, Alice não alimenta grandes ambições. No país do futebol, ela defende a bandeira dos jogos amadores. Queria cultura e, com o esporte, aprendeu que a vida pode tomar rumos inesperados e, nem por isso, menos interessantes. Cutucada sobre ser gremista ou colorada, Alice, como boa jornalista que pisa no tortuoso território dos gre-nais, apresenta um álibi incontestável: “Torço para o Brasil de Pelotas”.
sexta-feira, 25 de abril de 2008
Vargas, asilos e crises de consciência
Dia desses me veio um pensamento inusitado. Tenho uma tia-avó que sofre de alguns distúrbios mentais e está internada num asilo em Porto Alegre. Eni. Não, não é nenhuma onomatopéia desconhecida. É o nome dela mesmo. Eni passou a vida inteira com a mãe, que cuidou dela até o cansaço lhe ceifar a vida, há quatro anos.
Pois bem, essa breve contextualização é para dizer que, após dois anos morando na provinciana capital gaúcha, resolvi visitar a tia Eni. O asilo, ou melhor, a “casa de repouso” – odeio esses eufemismos hipócritas – fica na avenida Getúlio Vargas e tem inspiração divina: chama-se Arcanjo São Miguel.
Caminhando pela extensa avenida sem lixeiras, deparo-me com um número crescente de pedintes. Mendigos, moradores de rua, limpadores de pára-brisa. Gente que faz da grande avenida com nome de ditador nanico a sua casa. No percurso pelas oito quadras que me separam de São Miguel, peguei-me refletindo sobre a situação daquele lugar. Recheada de pedintes, a Getúlio Vargas remeteu-me ao paradoxal governo do homenageado pela malha asfáltica em questão.
É bem verdade que o caudilho gaúcho acabou com a política do café-com-leite e industrializou o país através do sistema de substituição de importações. Mas é inegável o caráter autoritário-populista de seu governo, que cooptou as massas e ditou os rumos do país com mãos de ferro após a implantação do Estado Novo, em 1937. Getúlio trocou uma oligarquia por outra. Ou melhor, outras. Agradando a massa excluída do país, o aclamado “pai dos pobres” conseguiu construir um consenso dócil e favorecer antigos setores do poder, como as oligarquias cafeeiras (vide o torra-torra de grãos realizado na época). Tudo isso, claro, com uma imagem de mudança, de progresso e de desenvolvimento. E o povo? O povo não se importava, afinal de contas já tinham um Ministério do Trabalho e a CLT. Formidável, não?
Bueno, tudo isso para dizer que, na promiscuidade daqueles pensamentos, em plena avenida, uma mulher me pede dinheiro. Sentada e escorada no muro de um suntuoso edifício, a mendiga era o retrato mais fiel da realidade brasileira – tanto em 1930, como hoje em dia. Minha mão cavouca, em vão, o bolso vazio. Bem na hora da abordagem, eu estava com um legítimo alfajor uruguaio na mochila. Pronto para ser deliciado. Era o último resquício de uma ida da minha mãe a Riveira. “Bá, não tenho dinheiro”, respondi, certo de que só a carteirinha do TRI habitava meu bolso. “Uma bolachinha?”, suplica a garota. Nesses momentos, a gente deve pensar rápido. Agir primeiro, refletir depois. Num ato instantâneo e quase involuntário, dei a ela o meu alfajor. “Mas tu vai ficá sem”, largou a mendiga. “Tu vai ficá sem”.
A grandiosidade da frase me comoveu. No auge de sua agonia, ela ainda se preocupa se eu vou comer ou não. A nobreza, a singeleza e o total carisma daquela mulher me cativaram de tal maneira que fiquei paralisado, com o olhar preso nela e a mente envolta em orgias interpretativas sobre a Era Vargas, o assistencialismo e a mesquinhez da elite brasileira. Só consegui murmurar um “não faz mal”, e continuei meu rumo, ciente da minha inferioridade perante tão altiva postura da marginalizada.
Nunca fui um defensor ferrenho do assistencialismo. Tampouco prego o Estado mínimo e a exclusão dos programas sociais, tidos como gastos parasitários por (argh!) Friedrich von Hayek, pai do neoliberalismo. Me vi, então, num debate interno. Fui assistencialista? Contribui com a perpetuação da mendicância no país? Ou apenas ajudei uma pessoa necessitada? Nesse caso, o argumento de “ensinar a pescar, em vez de dar o peixe” não se aplica. Não tinha como eu ensinar a mendiga a fabricar alfajores. Até porque, mesmo que eu soubesse fazer e ela aprendesse, não ficariam iguais aos semidivinos bolachões uruguaios. Enfim, fui para casa com essa pulga na orelha e um alfajor a menos. Mas com duas certezas a mais: de ter aliviado, minimamente, o sofrimento daquela mulher; e de ser totalmente inferior à nobreza de uma excluída da/de Getúlio Vargas.
quarta-feira, 16 de abril de 2008
...e seu aluno do Sul
Joseph Mitchell é a prova mais indiscutível de que nem sempre o sujeito é um produto do meio em que vive. O jornalista-escritor norte-americano nasceu no sul dos Estados Unidos, em 1908. Imaginem o sul do “grande irmão do norte” em 1908. Fazendinhas bucólicas, um ou outro moinho, fenos dançando ao vento e plantações de milho, algodão e tabaco por todo o lado. Dá para imaginar que um ambiente desses poderia produzir um ser humano da estirpe de Joseph Mitchell? terça-feira, 8 de abril de 2008
Fragmentos desastrosos de uma noite errática
A tarefa era simples, tinha que ir ao chaveiro (que fica no shopping) e voltar. Horário de largada: 18h. A chegada não tinha hora marcada. Era tão incerta quanto o destino do meu celular. No princípio, cogitei não levá-lo na miniempreitada por motivos práticos. Era menos uma coisa para carregar e menos uma coisa a ser roubada (sim, eu sempre considero essa hipótese). Porém, ao catraquear a chave no trinque, voltei o olhar para aquele objeto inerte em cima da mesa mogno que preenchia o centro da sala. Comecei, então, a pensar no que poderia acontecer caso eu não alojasse em meu bolso aquele projeto de telefone. E se alguém me ligasse? E se aquela pessoa me ligasse? A gente sempre espera uma ligação daquela pessoa! E se alguém da minha família morresse ou se acidentasse? E se a RBS resolvesse me contratar de supetão? A RBS nunca liga duas vezes. E se a VIVO me ligasse? E se ele sentisse fome, frio? E se? E se? E seee?
Mesmo assim, tomei um gole longo de ar, catraqueei a chave e segui em frente. Tentava limpar minha mente com assuntos banais, mas não adiantou. Toda a trajetória foi pautada pela apreensão quanto ao celular. O meu ouvido retumbava com a imaginação de seu triiim-triiim desesperado. Sozinho, como um recém nascido a espernear (sim, pois ele vibra enquanto toca), a procura do seio quente da mãe. Não que eu tenha um seio quente, mas podia oferecer uma mão acalentadora e alisar o tão aclamado botãozinho verde para cessar seu pranto.
Chegando no shopping, descobri ter me desdobrado em vão. O chaveiro não podia fazer a maldita cópia. Não tinha a tal da matriz! Aborrecido, resolvi ver o que se passava no cinema, já que havia saído da toca por nada. Foi aí que cometi a segunda ousadia da noite – assisti a um filme sem nem mesmo saber do que se tratava. Dá para imaginar isso? Em plena era da informação, um retardado entra numa sala de cinema sabendo nada mais que o título do filme (e que seu diretor também fez Sr. e Sra. Smith – que eu odiei). Jumper era o único que se encaixava no meu horário. O cartaz era enigmático e assaz hollywoodiano. Mostrava um homem ereto com o punho ligeiramente em riste. Ao fundo havia imagens de várias paisagens conhecidas do globo, como o Coliseu e a Esfinge. Bem, a primeira coisa que me ocorreu foi que era algo sobre um cara que saltava de bungee jump por aí e gostava de exibir o punho. Nunca se sabe o que pode sair da mente infértil dessa gente do cinema.
O filme era uma bosta! Indigno de comentários. Ao menos o tempo passou e eu rasguei quatro reais. Poderia ter comprado algumas esfihas com essa grana. Mas, não, meu dinheiro estava se teletransportando enlouquecidamente no bolso do protagonista de Jumper. É, podem acreditar, o longa conta a história de um maluco que consegue se teletransportar. Bem feito, quem mandou ver sem saber!
Saber? Ãh? Putz, o CELULAR! Lacei o primeiro táxi que apareceu e fui a galope para casa. O motorista imprudente ainda reclamava sobre os “manetas do trânsito”. Os quais desejaria “atropelar com uma patrola”. Para o taxista, por manetas leia-se pessoas-que-trafegam-abaixo-da-velocidade-da-luz. Pelo menos a carona paga não durou muito. Com aflição, tentava achar a chave da primeira porta. A da segunda. As da terceira! Droga, ainda eram duas! Cai chave da mão, mais desespero. O triiim-triiim ecoa no cérebro e dissipa qualquer outro vestígio de pensamento. A chave catraqueia e vence a fechadura. A mesa cumpre, solícita, sua função e protege o celular da lei da gravidade.
O celular. Não fui audaz o bastante para tocá-lo logo que entrei. Me permiti ainda uma pequena série de devaneios. Quantas chamadas teria? Quantas mensagens eu iria ler? Alguma notícia trágica? Alguma alegria? Afinal, eu estava há quatro horas sem vê-lo! Quatro infinitas horas sem sentir sua textura, sem ver seu plano de fundo, sem sentir sua radiação. Qual foi a minha surpresa quando constatei, incrédulo, que não havia nada de diferente, exceto a hora que ele marcava. N-A-D-A. Como se quisesse ser superior a mim mesmo, fiz ares de quem já esperava por isso e esnobei aquela pequena caixinha preta. Deixando minha megalomania de lado, refleti um pouco sobre a dependência que temos de um mero instrumento mecânico só porque ele nos permite falar com outra pessoa à distância. Grande coisa! Os pombos-correio eram muito mais elegantes e refinados. Mas isso é assunto para um outro bost.
sexta-feira, 28 de março de 2008
Às Iracis
Bueno, foi aí que descobri Queridos Amigos. Confesso que as minisséries globais nunca me despertaram muito interesse. Eram repletas de pretensas verdades e aberrações históricas. Mas essa, não. Sua sensibilidade lírica, o subjetivismo de suas interpretações e o caráter imperfeito de todas as suas personagens me deixaram surpreso. No primeiro capítulo, pensei estar no canal errado. Mas a telinha marcava insistentemente o número 12 no canto inferior direito (sim, eu integro a massa dos que possuem televisão aberta). Era a primeira vez que meus inexperientes ouvidos captavam palavras como “ditadura”, “redemocratização” e “repressão” saindo daquela freqüência. Daquele canal. Conferi de novo e lá estava o onipresente número 12.
Queridos Amigos consegue retratar uma época de enormes incertezas, a frágil transição para os anos 90, de uma maneira livre de estereótipos e sem dar voz a tão propagados mitos nacionais. Afinal, era praticamente o fim de uma era. O fim de muitos sonhos e o começo de algumas conquistas – poucas e falhas. E a minissérie mostra esse panorama sem reavivar pré-conceitos ou impor verdades absolutas.
Ontem, quando finalmente não tinha nem Pedro Bial e seus heróis, nem qualquer jogo do raio-que-o-parta contra o atlético-sei-lá-das-quantas, pude finalmente acompanhar de novo os anseios de Léo e companhia. Uma cena, em especial, me deixou vidrado. Alucinado em frente à tela. Sequer deveria ter piscado. Fernanda Montenegro, travestida de mãe de uma vítima da ditadura, colocava-se, por vontade própria, cara a cara com o algoz de sua filha, que ainda apresentava feridas psicológicas de um período de terror. Encarnada em dona Iraci, ela puxou um livro e leu para o carrasco, conhecido como “nenê”, as inenarráveis brutalidades escritas por sua filha. Confissões exorcizantes de males que a alma não descarta e que o tempo não relega aos confins do esquecimento. Ao rebater que “só cumpria ordens”, o torturador/estuprador levou uma bofetada na cara!
Vocês conseguem imaginar isso? Conseguem imaginar a ira de uma senhora de 70 e poucos anos que se atreve a esbofetear um homem capaz das piores atrocidades? Talento de Fernanda ou pieguice minha, eu pude sentir cada gota de rancor, mágoa e sofrimento destilada pelas palavras da atriz. O tabefe me fez dar um salto do sofá. Aquela mãe declamando selvajarias aos berros contra o demônio de sua cria pode até ser ficcional. Uma farsa encenada e cronometrada. E, por mais absorto que eu estivesse, ainda tinha consciência disso.
Entretanto, tão logo vieram as propagandas, surpreendi-me num choro súbito. Pranto de almas férteis que sentem pelos outros, sentia como se fosse eu o protetor de uma filha torturada. As lágrimas escorriam e me faziam pensar nas verdadeiras Iracis. Nas mães que viram seus filhos estropiarem-se por uma causa perdida. Por um idealismo desbundado ou por uma porralouquice desvairada. Teriam elas, também, iracundas leoas que zelam pela sua prole, deitado o peso de suas mãos na cara dos inimigos de uma geração?
Pode parecer besta, irrisório e, até mesmo, infantil. Mas eu dediquei aquele inesperado e incontido choro a todas as Iracis do Brasil. Pessoas que, com um pequeno ato de extrema coragem, deixaram uma marca em quem banhou este país de sangue, em qualquer época. Gente que teve a audácia de apontar o dedo para os “nenês” que circulavam, e que ainda circulam, livremente pelas ruelas e avenidas brasileiras.
segunda-feira, 24 de março de 2008
Jornalismo e política regados a chumbo
”Hoje tu tens uma meleca geral.” A frase pode parecer estranha e até nojenta. Mas resume, em poucas palavras, o panorama político atual. E ninguém mais gabaritado para ditá-la do que um jornalista do porte de José Mitchell. O ex-repórter e atual pauteiro da RBSTV conversou com estudantes de jornalismo da PUCRS sobre sua vasta experiência na cobertura política nos sombrios tempos da ditadura militar brasileira.O início da década de 1970 foi o lamacento palco de atuação de Mitchell como repórter na sucursal do então prestigioso Jornal do Brasil, em Porto Alegre. Ele cobria as áreas de política e de polícia para o periódico carioca aqui nos pampas. Política e polícia, duas palavras promiscuamente interligadas numa época em que aprofundar-se demais nesses assuntos podia levar à cadeia e, conseqüentemente, talvez, até a morte.
E como era, então, o trabalho do jornalista que se aventurava pelos subterrâneos desses temas? “Nós tínhamos uma ditadura militar, então, na área política, quem eram as fontes? Eram os generais. Eram eles que mandavam”, comenta Mitchell, ressaltando a fragilidade das instituições civis e dos partidos políticos naquele período.
Autor do livro Segredos à direita e à esquerda da ditadura militar, Mitchell reconhece que, antes de qualquer atributo, “um bom jornalista deve saber contar boas histórias”. E foi com esse intuito que ele desmembrou em livro histórias peculiares da ditadura tupiniquim. Seu objetivo não é santificar ou demonizar figuras conhecidas da repressão ou da guerrilha. Mitchell deseja humanizá-los através de histórias reais.
O leitor pode se surpreender ao saber que a maior e mais bem sucedida greve do magistério, a de 1979 – que culminou com a contratação de 20 mil professoras e com um aumento de 70% no salário -, só obteve êxito graças à intervenção direta dos militares no caso. Ou, então, se comover ao ler que um dos acusados de ser torturador em Porto Alegre, o delegado do DOPS (órgão de repressão do regime) Pedro Seelig, salvou da morte os dois filhos do famoso casal de presos políticos uruguaios, Líllian Celiberti e Universindo Dias. José Mitchell, aliás, participou ativamente do grupo de jornalistas que investigou o nebuloso caso que envolveu o seqüestro, em solo gaúcho, dos uruguaios pelos aparelhos de repressão das ditaduras latino-americanas.
Com tanta experiência adquirida durante 30 anos de trabalho, Mitchell define de maneira simples o que é a política: “São pessoas disputando o poder”. E alerta aos futuros jornalistas para que fiquem atentos a essa questão, principalmente no que diz respeito às benesses que esse poder pode proporcionar. Com um ar de quem já viveu um bocado e entende das coisas da vida, sentencia: “Os jornalistas devem lutar contra privilégios”. E, sem cair no saudosismo ou na amargura de quem viveu os anos de chumbo, declara: “Ditadura é ditadura, seja de esquerda ou de direita. Não há regime melhor que a democracia”. Eis as palavras de quem, sem ter caído no extremismo ou sucumbido à derrota, se equilibrou na corda bamba de um tortuoso período da história brasileira.
sábado, 22 de março de 2008
a, b, c, ...

Bom apetite!
sexta-feira, 14 de março de 2008
Manifesto à bunda
Ainda não conseguiu imaginar do que se trata? Ora, você certamente já fez isso alguma vez. Puxar a camiseta para não aparecer a bunda é uma tradição milenar. Deve ter surgido com a roupa. Ou melhor, com as peles. É fácil imaginar nossos irmãos das cavernas tecendo couraças mais compridas para tapar a poupança. Com a revolução industrial, o hábito se inseriu de forma massiva na sociedade e logo haveria de ser cooptado pela indústria cultural.
Deixando de lado o grande parêntese e o regate histórico baseado meramente em devaneios, o fato é que as pessoas não expõem a bunda! E não digo isso como se eu andasse por aí com minhas vergonhas à mostra (como diria Pero Vaz de Caminha ao falar sobre os índios brasileiros). A questão não é essa. Transcende o físico e vai além da compreensão freudiana das coisas.
Chega a ser um enorme paradoxo. Por exemplo, os caras adoram usar camisetas que caiam bem na cintura. De preferência valorizando o tronco e os músculos. Mas aí, a qualquer movimento mais brusco, a bunda desvela-se. O que leva o sujeito a realizar a seqüência descrita no primeiro parágrafo. E eu me pergunto: se isso o incomoda tanto, por que raios insiste em se vestir assim?
Claro, há os completamente surtados. E aí eu consigo classificá-los em dois lados: os superultra roqueiros alernativíssimos e os maníacos do basquete e do hip-hop. Tá, meio que generalizei demais. Mas creio que me farei entender. O primeiro grupo, com suas milhões de subdivisões – que podem ir do emo ao heavy metal -, chega a ser quase feminino com as calças hiperjustas e as camisetas lembrando uma baby-look. Essas calças sufocam a pobre bunda e a fazem parecer um pastel de forno que não deu certo. Os últimos, por sua vez, tomam cuidado para não pisar nas roupas. Sim, pois as camisetas e as bermudas extra GG tornam impossível qualquer tentativa de locomoção saudável. Deve ser horrível carregar tanto peso no corpo. Porém, não deve ser menos doloroso se mover dentro das calças apertadas dos membros do primeiro grupo. Algumas fazem jus ao termo “bolas chorando”.
Bem, brevemente explanadas as exceções masculinas, volto ao caso da bunda. Não são somente os homens que têm esse complexo. As mulheres também sofrem com a cultura de opressão à bunda. E, no caso delas, o paradoxo é muito maior. Calma! Antes que alguma leitora se indigne e saia do blog, explicarei minhas convicções. E quero deixar bem claro que fiz uma extensa pesquisa de campo sobre o assunto.
As mulheres têm uma relação ambígua com a bunda. Se ela é muito pequena, ficam com complexo de desbundadas (no sentido literal da palavra) e têm o maior pavor em mostrá-la. Já, se a parte em questão é muito grande, ou mesmo saliente, ficam com complexo de elefantas e também a repudiam totalmente. Para elas, ser bunduda não é necessariamente um elogio. O contrário, muito menos.
Aí poderíamos cair na questão do culto ao corpo perfeito e da insatisfação sujeitada pela ditadura da beleza. Ok, esses fatores são importantes, mas não é o que quero mostrar. Quero mostrar a bunda! Ou melhor (que eu me esclareça, para manter um mínimo de decoro), quero questionar os diferentes olhares sobre a bunda e a marginalização que ela sofre na sociedade. Tirando a praia, o que resta para uma bunda hoje em dia? Ficar enfornada dentro de uma calça e, ainda por cima, totalmente vetada por camisetas e blusas que insistem em lhe tirar a glória?
O Brasil adora dizer que, enquanto os Estados Unidos cultuam as tetas, nós cultuamos a bunda. Mas, ao falar isso, também se está relegando ela a um papel marginal. O Brasil só cultua a bunda em praias ou nos filmes pornográficos. Isso acaba por transformar os traseiros em algo como promessas eleitorais: só são lembrados de tempo em tempo, em ocasiões específicas. Sim, somos o país do futebol, do carnaval e do samba. Mas me atreverei a questionar outro mito nacional e lanço para minha meia dúzia de leitores a pergunta: somos, também, o país da bunda?
P.S.: Os professores de texto ficariam fulos com essa crônica. Repeti QUATORZE vezes a palavra "bunda". Quinze, com essa.